Provedor de Justiça
Recomendação n.º 79/A/1996
- Data
- 1996-10-18
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Decisão
- Sem resposta
- Emitente
- Presidente da Câmara Municipal de Loures
- Descritores
Texto integral (1107 palavras)
Presidente da Câmara Municipal de Loures
Processo:R-2418/93
Número: 79/ A/96
Data:18.10.1996
Área: A1
Assunto:AMBIENTE - SUBSTÂNCIAS PERIGOSAS - DEPÓSITO DE GÁS - VIA PÚBLICA -
SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO - ATRIBUIÇÕES MUNICIPAIS - EXECUÇÃO COACTIVA DE
ACTO ADMINISTRATIVO.
Sequência:Sem resposta
I- Exposição de Motivos
1. Pelo Sr..., morador na Urbanização das Urmeiras, em Loures, foi apresentada queixa a este Órgão do
Estado em 21 de Setembro de 1993, contra a situação de perigo motivada pelo estacionamento permanente de
três veículos pesados que servem de depósito de botijas para gás doméstico em frente ao prédio em que
reside.
2. Solicitado a essa Câmara Municipal o esclarecimento dos factos objecto da queixa apresentada, informou
V.ª Ex.ª, através do ofício n.º ..., ter sido verificada, em diversas vistorias efectuadas ao local, a procedência
da reclamação.
3. Notificada a representante legal da empresa distribuidora de gás Lourigás, proprietária dos veículos, em
cumprimento do disposto no art.º 100.º, do Código do Procedimento Administrativo, foi esta ouvida em
declarações a 21 de Junho de 1994, tendo- se comprometido a proceder à remoção das viaturas até 31 de Julho
do mesmo ano, o que não veio a acontecer.
4. Assim, ordenou o Exm.º Vereador Francisco Joaquim Pereira, por despacho de 03.10.1994, que fosse
notificado o proprietário para proceder, no prazo de 48 horas, à remoção dos veículos. Fundamentou- se a
ordem de remoção, por remissão para a informações n.ºs 219/ MP/ DZN/94 e 167/ DZN/ MB/94, no facto da
área em causa não se encontrar vocacionada para depósito/ armazenagem de botijas de gás e não estando
reunidas as condições de segurança de tais instalações estar criada uma situação de perigo iminente para as
áreas envolventes e respectivos moradores.
5. Apesar dos esforços envidados pelos serviços competentes da Câmara Municipal de Loures para a
resolução do problema, documentados nas informações anexas aos ofícios n.ºs ..., ...., ..., através do ofício
n.º ..., confirmou esse órgão autárquico a manutenção da situação reclamada e informou sobre a instauração à
empresa Lourigás de adequado procedimento contra- ordenacional por violação do disposto no art.º 39.º,
ponto 12.º, do Regulamento Geral das Estradas e Caminhos Municipais (Lei n.º 2110, de 19 de Agosto de
1961).
6. Estabelece aquela norma, no âmbito dos deveres do público em relação à polícia das estradas e caminhos
municipais, a proibição de assentar nas zonas das vias municipais, sem licença, quaisquer construções ou
abrigos móveis, candeeiros, postes, balanças, bombas automedidoras e coisas semelhantes e, bem assim,
estabelecer à superfície, no ar ou no subsolo, tubos, fios, depósitos ou outras instalações.
7. Por seu turno, prescreve- se no art.º 41.º do citado diploma que qualquer objecto deixado nas vias
municipais com demora, sem ser em acto de carga, descarga ou condução, ter- se- á como perdido e será
removido pelo pessoal camarário.
8. Cometem as disposições citadas às Câmaras Municipais, no âmbito das respectivas atribuições e
competências em matéria de segurança e comodidade do trânsito nas estradas e caminhos municipais (art.ºs
46.º, n.ºs 1 a 3, e 50.º, n.º 1, do Código Administrativo, e art.º 51.º, n.º 4, alínea d), da Lei das Autarquias
Locais) os poderes necessários à resolução da situação em análise a que urge dar execução.
9. Não obstante ter a Câmara Municipal de Loures utilizado os meios de carácter sancionatório ao seu alcance
para induzir a infractora ao respectivo cumprimento voluntário, tais diligências revelaram- se infrutíferas, pelo
que apenas resta actuar os poderes de execução administrativa a fim de ser restaurada a legalidade e suprimida
a situação de perigo para os moradores no local.
10. Com efeito, a instauração e prossecução do procedimento contra- ordenacional constitui uma medida de
compulsão psicológica significativa para a sua execução e cumprimento (OLIVEIRA, Mário Esteves e outros,
Código do Procedimento Administrativo, Comentado, Vol. II, Coimbra, 1993, p. 230).
11. Todavia, não constitui este mecanismo uma medida de execução do acto administrativo e, por tal razão,
não está apto a realizar os respectivos efeitos.
12. Sem pretender questionar a margem de livre apreciação de que a Administração Pública dispõe na tomada
da decisão de execução coactiva de um certo acto, não se vislumbram, no caso em análise prejuízos ou
prováveis lesões de direitos ou interesses legítimos de terceiros que importe acautelar e que possam obstar à
execução coactiva da ordem de remoção. Ao invés, resultam afectados os interesses públicos a prosseguir
através do adequado exercício das competências municipais em matéria de policiamento das estradas e
caminhos e está criada uma situação de perigo para as pessoas e bens cuja lesão fará incorrer esse órgão
autárquico em responsabilidade por actos de gestão pública caso não venha a exercer os poderes que a lei lhe
confere.
13. Para mais, trata- se de assegurar, através da plena operatividade do acto administrativo em questão, o
respeito da legalidade violada.
14. Atentas as exigências legais em matéria de armazenagem, distribuição e qualidade dos aparelhos e dos
materiais utilizados, bem como quanto às condições de instalação dos equipamentos, evacuação dos produtos
da combustão e condições de ventilação que desde há muito têm merecido consagração legislativa,
designadamente, através das disposições dos Decretos- Lei n.ºs 29034 e 36270, de 1 de Outubro de 1938 e 9
de Maio de 1947, não se pode aceitar a existência de um depósito de botijas de gás na via pública sem
observância das regras de segurança e numa zona exclusivamente habitacional.
15. Assim, tratando- se de um problema no qual, mais do que a mera ilegalidade consistente na indevida
ocupação do espaço público, ressalta uma situação de perigo iminente para a segurança de quantos ali
residem, importa exercer as competências camarárias susceptíveis de lhe pôr cobro.
II- Conclusões
Em face do exposto e no exercício da atribuição constitucional que me é conferida no sentido da prevenção e
reparação de actos e omissões lesivos (art.º 23.º, n.º 1, da CRP), entendo dever fazer uso do poder que me é
atribuído pelo art.º 20.º, n.º 1, alínea a), da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril, e, como tal,RECOMENDO:
1. Que promova a Câmara Municipal de Loures, nos termos do disposto no art.º 157.º, n.ºs 1 e 2, do Código
do Procedimento Administrativo, a execução coactiva da ordem de remoção dos veículos utilizados como
depósito de botijas de gás, na Quinta das Urmeiras, em Loures, a expensas do infractor.
2. Para tal fim, deve ser notificado o legal representante da empresa Lourigás, nos termos e para efeitos do
disposto no art.º 152.º, do Código do Procedimento Administrativo, da decisão de se proceder à execução da
ordem de remoção, com indicação dos termos em que a mesma irá ser realizada (art.º 157.º, n.º 2, do CPA).
O PROVEDOR DE JUSTIÇA
José Menéres Pimentel