Provedor de Justiça
Recomendação n.º 7/B/2003
- Data
- 2003-09-03
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Emitente
- Presidente da Assembleia da República
Texto integral (4582 palavras)
Presidente da Assembleia da República
Rec. n.º 7/ B/2003
Proc. R-4576/00
Data: 2003.09.26
Área: A6
Assunto: Função Pública. Carreiras. Pessoal Auxiliar. Funções efectivamente exercidas. Educadores de
infância. Contagem do tempo de serviço. Progressão na carreira.
Posição : Acatada. Lei n.º 59/2005, de 29 de Dezembro.
Introdução
O assunto que trago, através do presente documento, à consideração da Assembleia da República, foi já
discutido em sede parlamentar, na VIII Legislatura. Permita- me Vossa Excelência, enquanto Presidente desse
Órgão de Soberania, que exponha as razões subjacentes a esta minha iniciativa, pelas quais julgo ser de
aperfeiçoar o tratamento legislativo da matéria em apreço que dessa pretérita discussão resultou.
É conhecida a expansão que as infra- estruturas e os equipamentos do ensino pré- escolar conheceram, nas
décadas de 70 e 80 do século passado, com acompanhamento da produção legislativa correspondente �
recordo que o sistema público de educação pré- escolar foi criado pela Lei n.º 5/77, de 1 de Fevereiro, datando
o diploma que aprovou o Estatuto dos Jardins- de- Infância de 1979 (Decreto- Lei n.º 542/79, de 31 de
Dezembro).
No entanto � e o próprio legislador vem reconhecer posteriormente esta situação, nos termos mais à frente
mencionados �, o sistema não estava então preparado, no que toca ao pessoal habilitado a exercer funções
nas instituições em causa, muito especialmente no que diz respeito aos educadores � o art.º 44.º, n.º 1, do
mencionado Decreto- Lei n.º 542/79, estabelece que o pessoal dos jardins- de- infância é constituído por
educadores e por pessoal auxiliar de apoio �, para dar uma resposta adequada à evolução registada.
Por este motivo, as funções inerentes à categoria de educador de infância foram, em parte e durante algum
tempo, asseguradas também por profissionais que não detinham, à data, aquela categoria, muito especialmente
pelos auxiliares de educação, mas também por detentores de outras categorias do pessoal auxiliar,
designadamente os vigilantes, ajudantes de creche e jardim- de- infância e monitores. Muitos destes
profissionais ingressaram posteriormente na carreira de educador de infância.
Assim sendo, é já antiga a pretensão dos actuais educadores de infância que, antes de ingressarem na carreira
docente, exerceram, de facto, as funções que compõem o conteúdo funcional da mesma, muito embora
integrados em diversas categorias de pessoal auxiliar com funções pedagógicas, no sentido de verem contado
esse tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira.
A publicação da Lei n.º 5/2001, de 2 de Maio, veio satisfazer a pretensão dos profissionais � ou melhor, de
alguns deles � colocados na situação mencionada.
Deste modo, o art.º 1.º do mencionado diploma equipara "a serviço efectivo em funções docentes, para efeitos
de progressão na carreira, o tempo de serviço prestado na categoria de auxiliar de educação pelos educadores
de infância habilitados com os cursos de promoção a educadores de infância a que se refere o despacho n.º
52/80, de 12 de Junho (...)", consagrando assim um regime excepcional de contagem do tempo de serviço,
para estes efeitos de progressão na carreira, quer no âmbito da função pública, quer no mais específico da
carreira docente.
Recordo que o Despacho n.º 52/80, de 26 de Maio de 1980, dos Secretários de Estado da Educação e da
Segurança Social (publicado no Diário da República, II Série, de 12 de Junho de 1980), estabeleceu a
possibilidade de, através da frequência com aproveitamento dos cursos de promoção aí referidos, os auxiliares
Recordo que o Despacho n.º 52/80, de 26 de Maio de 1980, dos Secretários de Estado da Educação e da
Segurança Social (publicado no Diário da República, II Série, de 12 de Junho de 1980), estabeleceu a
possibilidade de, através da frequência com aproveitamento dos cursos de promoção aí referidos, os auxiliares
de educação que, à data, preenchessem os requisitos também aí enunciados, obterem a equiparação ao curso
de educadores de infância (cf. designadamente pontos 3, 4 e 12 do mencionado Despacho).
Posteriormente e com relevo para a matéria aqui em discussão, o Despacho conjunto dos Secretários de
Estado da Educação e Administração Escolar e da Segurança Social, de 20 de Abril de 1983 (publicado no
Diário da República, II Série, de 11 de Maio de 1983), veio permitir que o pessoal auxiliar (vigilantes e
ajudantes) com funções pedagógicas que, à data da publicação do Despacho n.º 52/80 não preenchesse ainda
os requisitos aí definidos, viesse a concorrer à frequência dos referidos cursos de promoção a educadores de
infância.
De qualquer forma, note- se que o Despacho n.º 13/ EJ/82, que tinha já antes regulamentado os cursos
aprovados pelo Despacho n.º 52/80, refere, no respectivo ponto 26, que "poderão candidatar- se às
modalidades do CPEI (Cursos de Promoção a Educador de Infância) existentes os profissionais que,
independentemente das designações profissionais respectivas, exerçam, de facto, funções pedagógicas junto
de grupos de crianças em idade pré- escolar, com exclusão do desempenho profissional relativo a ensino
especial ou em regime de internato, e que satisfaçam os requisitos formais constantes do Despacho n.º 52/80".
Mais à frente exige- se, para a formalização da candidatura das pessoas colocadas na referida situação, uma
declaração comprovativa do tempo de serviço prestado no exercício das referidas funções pedagógicas,
autenticada pela entidade patronal, com indicação expressa das datas de início e termo respectivos, do local
onde foram prestadas e discriminação funcional das actividades desempenhadas [(ponto 28, alínea d)].
O mesmo Despacho exclui, como se vê, os profissionais que desempenhassem as suas funções no ensino
especial ou em regime de internato (exclusão também estabelecida pelo Despacho conjunto de 1983 acima
citado � n.º 1, alínea c), parte final).
Assim sendo, parece que quis o legislador, já em sede de regulamentação do Despacho n.º 52/80, explicitar
que a expressão auxiliar de educação aqui utilizada incluiria os profissionais inseridos em categorias do
pessoal auxiliar para além da categoria de auxiliar de educação. Em 1983, conforme já mencionado, acaba por
se estabelecer expressamente essa possibilidade, através do citado Despacho conjunto das Secretarias de
Estado da Educação e Administração Escolar e da Segurança Social.
A legislação atrás referida, designadamente o Despacho n.º 52/80 e Despachos subsequentes, nada previu
sobre a eventual contagem, aos actuais educadores de infância, do tempo de serviço prestado em outras
categorias para efeitos de progressão na carreira, nem seria esse o lugar normativo adequado para o fazer.
A Lei n.º 5/2001 teve assim em vista este objectivo.
Este diploma, aprovado pela Assembleia da República após um debate (ao qual se fará referência adiante) que
incluiu precisamente a discussão da extensão, ou não, ao pessoal auxiliar � vigilantes e ajudantes � da
solução proposta pelo Grupo Parlamentar que apadrinhou a iniciativa legislativa em apreço, viria no entanto a
permitir a contagem do tempo de serviço prestado, para os efeitos referidos e no contexto explicitado, apenas
na categoria de auxiliar de educação.
A posterior hesitação e mesmo descoordenação da Administração na interpretação e aplicação da citada Lei
n.º 5/2001, nos termos a seguir enunciados, foi decisiva para que a questão aqui em análise voltasse a
reacender- se.
Assim, através de parecer homologado pelo Senhor Secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social,
de 19 de Novembro de 2001, considerou- se no âmbito do então Ministério do Trabalho e da Solidariedade
que o teor da Lei n.º 5/2001 deveria ser interpretado extensivamente, de modo a abranger todos os educadores
de infância habilitados com os cursos de promoção a educador de infância criados pelo Despacho n.º 52/80,
independentemente da categoria detida aquando da admissão aos referidos cursos.
O Instituto de Solidariedade e Segurança Social defendia, por sua vez, que a referida legislação só poderia ser
aplicada aos ex- auxiliares de educação que concluíram com aproveitamento os cursos de promoção a
educador de infância criados pelo supra identificado Despacho n.º 52/80.
O Instituto de Solidariedade e Segurança Social defendia, por sua vez, que a referida legislação só poderia ser
aplicada aos ex- auxiliares de educação que concluíram com aproveitamento os cursos de promoção a
educador de infância criados pelo supra identificado Despacho n.º 52/80.
Finalmente, o Ministério da Educação entendia também que o tempo de serviço relevante para efeitos da
aplicação da Lei n.º 5/2001 seria apenas e tão só aquele prestado pelos actuais educadores de infância que
frequentaram com aproveitamento os cursos de promoção a que alude o Despacho n.º 52/80, na categoria de
auxiliares de educação � entendimento mais recentemente confirmado pelo Despacho do Senhor Secretário
de Estado da Administração Educativa de 2 de Janeiro de 2003.
Detectada a divergência de posições dos Ministérios envolvidos na interpretação da legislação em análise, foi
a mesma ultrapassada com a definição, por Despacho da Senhora Secretária de Estado da Segurança Social,
de 9 de Janeiro de 2003, do entendimento de que o âmbito de aplicação da Lei n.º 5/2001 se reporta à
contagem do tempo de serviço prestado apenas na categoria de auxiliar de educação pelos actuais educadores
de infância que acederam à categoria após a frequência, com aproveitamento, dos cursos de promoção a que
alude o já identificado Despacho n.º 52/80.
Em conformidade � a situação é ilustrada por queixas várias que recebi, sobre casos concretos � foram
revogados os actos que haviam posicionado os educadores de infância em escalões superiores em virtude da
interpretação extensiva da Lei n.º 5/2001 anteriormente feita pelo agora Ministério da Segurança Social e do
Trabalho.
As vicissitudes do processo de aplicação da Lei n.º 5/2001 atrás enunciadas provocaram não só um tratamento
desigual de situações idênticas, como levaram a reposicionamentos sucessivos � e, na sequência da última
orientação da Secretaria de Estado da Segurança Social, ao reposicionamento dos destinatários das revogações
mencionadas em escalões inferiores aos detidos� de alguns dos profissionais na categoria em causa, com a
consequente devolução das quantias entretanto recebidas.
A verdade é que uma leitura dos trabalhos preparatórios do diploma em discussão não ajudará à defesa de
uma interpretação extensiva do mesmo.
Antes de mais, para além do elemento literal que envolve o teor do projecto de lei n.º 219/ VIII, da autoria do
Grupo Parlamentar do PS, que esteve na origem da Lei em apreço, a própria exposição de motivos que o
antecede é clara nessa intenção. Após aí referir- se o enquadramento da proposta efectuada � quanto ao
facto, já atrás descrito, de o número de educadores de infância nas décadas de expansão do ensino pré- escolar
se ter revelado insuficiente para dar resposta às necessidades então sentidas � pode ler- se no texto em
apreço:
"Neste quadro de enorme escassez de recursos humanos preparados e formados,a saída possível consistiu no
recurso às auxiliares de educação, que passaram a desenvolver com carácter de regularidade as funções
inerentes à categoria de educador de infância, incluindo, nalguns casos, o exercício de cargos de direcção dos
estabelecimentos de educação pré- escolar, embora auferindo vencimentos inferiores aos desta categoria
profissional. (...) Trata- se, pois � e é justo reconhecê- lo �, de um grupo profissional cuja utilização pelo
sistema permitiu a expansão da educação pré- escolar, que de outro modo teria ficado
comprometida. (...) Dando resposta às justas reivindicações e legítimas expectativas das auxiliares de
educação, foi- lhes dada a possibilidade, através de legislação criada para o efeito, de acederem à categoria de
educador de infância mediante a frequência de um curso de promoção a educadores.
Contudo, o acesso das auxiliares de educação à categoria de educador de infância acabaria por ser legalmente
consagrado com efeitos ao nível profissional, sem ter em linha de conta o tempo de serviço prestado na
categoria de auxiliares de educação".
Por outro lado, a própria discussão, na generalidade, do projecto de lei mencionado, não deixa margem para
dúvidas. A questão ora em análise foi então expressamente debatida, tendo sido deixado bem claro pelo
Grupo Parlamentar ao qual coube a iniciativa no caso concreto que pretendia circunscrever a solução proposta
ao grupo dos auxiliares de educação (cf. Diário da Assembleia da República, I Série, n.º 54, de 2 de Março de
2001, pp. 2200 a 2206).
Aliás, um dos outros Grupos Parlamentares, o do PSD, apresentou, na especialidade, uma proposta no sentido
de a legislação abranger igualmente os detentores das categorias de vigilante e ajudante, e que não foi
aprovada (cf. declaração de voto in Diário da Assembleia da República, I Série, n.º 63, de 23 de Março de
Aliás, um dos outros Grupos Parlamentares, o do PSD, apresentou, na especialidade, uma proposta no sentido
de a legislação abranger igualmente os detentores das categorias de vigilante e ajudante, e que não foi
aprovada (cf. declaração de voto in Diário da Assembleia da República, I Série, n.º 63, de 23 de Março de
2001, p. 2510).
Assim sendo, fácil se mostra concluir que não esteve presente no espírito do legislador � antes pelo
contrário � estender a solução consagrada na Lei n.º 5/2001 a outras categorias para além da dos antigos
auxiliares de educação.
Importa agora verificar se a razão de ser da previsão ínsita no referido diploma se revelará ela própria
extensível a outras situações não contempladas pela Lei n.º 5/2001, levando a que a respectiva aprovação
tenha representado uma injustiça relativamente a outros potenciais destinatários que a mesma não abrangeu.
I) Educadores de infância com o curso de promoção a que se reportam o Despacho n.º 52/80 e Despachos
subsequentes, que exerceram as funções de educador de infância enquanto detentores de categorias de pessoal
auxiliar � vigilante, ajudante de creche e jardim- de- infância e monitor � que não a de auxiliar de
educação:
Repare Vossa Excelência que, apesar de a Lei n.º 5/2001 não condicionar a contagem do tempo de serviço na
categoria de auxiliar de educação ao exercício efectivo das funções de educador de infância � a fórmula
escolhida foi a de premiar em bloco a categoria de auxiliar de educação, sem apuramento prévio sobre o
exercício ou não, pelas pessoas em concreto, de funções efectivas coincidentes com as de educador de
infância �, a verdade é que o objectivo da mesma é reconhecer o tempo de serviço efectivamente prestado
nessas funções, partindo- se de uma presunção generalizada de que o exercício efectivo das
funções de educador de infância representaria, à data da emissão do Despacho n.º 52/80, a situação concreta
da esmagadora maioria dos auxiliares de educação.
Aliás, pode ler- se no preâmbulo deste mesmo Despacho o seguinte: "Embora a formação dos auxiliares de
educação tenha em consideração o seu enquadramento profissional por educadores de infância, aceita- se, por
condicionalismos vários, que as suas funções sejam, conjunturalmente, análogas às dos educadores de
infância".
Ora, como a realidade veio a demonstrar, não eram apenas os auxiliares de educação a única categoria que, no
referido contexto conjuntural, assegurava o exercício efectivo de funções inerentes à carreira de educador de
infância.
Note- se, de resto, que o próprio Despacho n.º 52/80 adiantava, no respectivo preâmbulo, que "assume
especial relevo, em virtude da indefinição e variedade das situações, tudo quanto se refere ao pessoal auxiliar
de educação de infância". Por outro lado, o mesmo Despacho inclui, nos pontos 4.1.1 e 4.1.4, dois cursos de
monitor de educação no rol de cursos com os quais os candidatos deveriam estar habilitados para acederem
aos cursos de promoção a educador de infância.
No preâmbulo do Despacho conjunto de 1983 já atrás mencionado, que expressamente permite ao pessoal
auxiliar (vigilantes e ajudantes) com funções pedagógicas concorrer aos mencionados cursos, adianta- se
como suporte da regulamentação no mesmo inserida os seguintes considerandos: a carência de educadores de
infância que impossibilitaria a entrada em funcionamento de jardins- de- infância criados recentemente e o
lançamento de novos, com todas as consequências, nomeadamente de ordem social e educativa, daí
decorrentes; a existência de profissionais com vários anos de experiência que só em data
posterior à da entrada em vigor do Despacho n.º 52/80 teriam adquirido as condições necessárias à frequência
dos cursos em referência � aqui estará mais um argumento no sentido de que este pessoal auxiliar com
funções pedagógicas esteve sempre incluído no grupo de candidatos aos cursos criados pelo Despacho n.º
52/80 �; e, finalmente, a irrazoabilidade de coarctar as aspirações de aperfeiçoamento destes profissionais.
Independentemente de se saber se os Despachos subsequentes ao Despacho n.º 52/80 vieram apenas
regulamentar este, explicitando que a expressão auxiliares de educação afinal abrangeria também outras
categorias do pessoal auxiliar, ou inovar ao introduzir essa possibilidade � questão que não interessará
agora aprofundar �, o certo é que o contexto, com um enquadramento histórico específico, em que surgiram
esses vários Despachos � insuficiência de meios e consequente necessidade de formação de novos
educadores de infância, bem como constatação de que essas funções estariam, na prática, a ser exercidas por
agora aprofundar �, o certo é que o contexto, com um enquadramento histórico específico, em que surgiram
esses vários Despachos � insuficiência de meios e consequente necessidade de formação de novos
educadores de infância, bem como constatação de que essas funções estariam, na prática, a ser exercidas por
outros profissionais � é válido tanto para os auxiliares de educação como para as restantes categorias do
pessoal auxiliar a que expressamente se referem o Despacho n.º 13/ EJ/82 e o Despacho conjunto de 1983,
ambos já devidamente identificados.
Sempre se poderia dizer que a Lei n.º 5/2001 apenas tem como destinatários os auxiliares de educação na
medida em que esta categoria terá, e teria já à data, inerente funções mais próximas das de educador de
infância � não valerá a pena encetar aqui a discussão sobre a natureza das funções de auxiliar de educação,
já que o que interessa apurar no âmbito da presente matéria é, não a natureza das funções inerentes a
determinadas categorias do pessoal auxiliar, mas o exercício de facto pelos funcionários em causa, qualquer
que seja a sua categoria, das funções docentes inerentes à categoria de educador de infância.
A verdade é que a Lei n.º 5/2001 não se limitou a ter como destinatários os auxiliares de educação, antes os
auxiliares de educação que concluíram com aproveitamento os cursos de promoção a educadores de infância a
que se refere o Despacho de 1980.
Conforme já referido, o Despacho n.º 52/80 e Despachos subsequentes vieram dar solução a um problema
com uma localização histórica muito precisa, caracterizado por um lado pela insuficiência de meios
qualificados para o exercício de funções de educador de infância e pela consequente necessidade do
respectivo reforço e, por outro, pela constatação de que profissionais de outras categorias � os auxiliares de
educação mas também designadamente os vigilantes e ajudantes de creche e jardim- de- infância � estariam
a exercer de facto essas funções, podendo, com a formação adequada, vir formalmente a estar habilitados a
esse exercício.
Foi a essa realidade específica � a que envolveu directamente a produção legislativa referente aos
mencionados Despachos � que se quis reportar a Lei n.º 5/2001, com o objectivo de, conforme aparece
expresso no preâmbulo do projecto de lei n.º 219/ VIII atrás mencionado, colmatar uma lacuna � a
circunstância de, no processo de acesso de profissionais não integrados na carreira docente à categoria de
educador de infância, não ter sido contabilizado o tempo de serviço prestado nas categorias de pessoal
auxiliar.
Assim sendo, nesta perspectiva, parece não poder distinguir- se entre a categoria de auxiliar de educação e as
outras categorias de pessoal auxiliar com funções pedagógicas a que a legislação se reporta, tendo todos eles,
em determinado momento � o que envolveu a produção dos Despachos criador e regulamentadores dos
cursos de promoção em apreço � servido a Administração e o Estado na prossecução da tarefa de
implementação de uma rede pública de ensino pré- escolar.
É claro que uma extensão da solução preconizada pela Lei n.º 5/2001 às diversas categorias de pessoal
auxiliar com funções pedagógicas teria sempre de estabelecer expressamente um requisito adicional � no
sentido de que não é o mesmo exigido, por via da mesma legislação, aos auxiliares de educação, conforme já
referido �, traduzido no exercício de facto, com carácter regular e efectivo, de funções inerentes às de
educador de infância.
Naturalmente também que as queixas de cidadãos colocados naquela situação têm na sua origem a
circunstância de os mesmos terem exercido, de facto, as funções inerentes à categoria de educador de
infância, enquanto colocados em categorias de pessoal auxiliar com funções pedagógicas � alguns mesmo
antes da frequência dos cursos, outros após essa frequência, enquanto não existiriam lugares no quadro para
educadores de infância. O próprio Despacho n.º 13/ EJ/82 referia, no respectivo ponto 50.1, que "a atribuição
do diploma referido � do curso de educador de infância, concedido pela frequência, com aproveitamento,
do curso de promoção em análise � não implica a obtenção imediata de lugar de educador no quadro do
estabelecimento onde o profissional desempenha a sua actividade".
II) Educadores de infância habilitados com os cursos de educador de infância ministrados pelos
estabelecimentos, públicos e privados, reconhecidos pelo Governo � e que ingressaram nestes cursos até ao
ano lectivo de 1986/1987 (o último ano lectivo em que foi possível ingressar nos cursos do Despacho n.º
II) Educadores de infância habilitados com os cursos de educador de infância ministrados pelos
estabelecimentos, públicos e privados, reconhecidos pelo Governo � e que ingressaram nestes cursos até ao
ano lectivo de 1986/1987 (o último ano lectivo em que foi possível ingressar nos cursos do Despacho n.º
52/80) �, que exerceram as funções de educador de infância enquanto detentores de categorias de pessoal
auxiliar, incluindo a categoria de auxiliar de educação:
Por outro lado, não se vislumbra razão para deixar de fora da solução acima proposta a situação dos actuais
educadores de infância que, pese embora não tenham frequentado os cursos de promoção a que alude o
Despacho n.º 52/80, ingressaram na carreira docente após a conclusão, na mesmíssima época, isto é, entre a
criação do ensino pré- escolar em Portugal e o fim do período de formação a que se referem o Despacho n.º
52/80 e Despachos subsequentes, de cursos de educador de infância ministrados por estabelecimentos de
ensino, públicos ou privados, regularmente reconhecidos pelo Governo, e que exerceram de facto, com
carácter regular e efectivo, enquanto detentores de categorias do pessoal auxiliar, as funções de educador de
infância.
Incluem- se igualmente, neste caso, os ex- auxiliares de educação habilitados com cursos de educador de
infância ministrados pelos referidos estabelecimentos de ensino, deixados de fora da previsão da Lei n.º
5/2001 � já que esta só contempla os auxiliares de educação habilitados com os cursos de promoção do
Despacho n.º 52/80.
Assim sendo, deveria também ser contabilizado, nos termos acima propostos para os actuais educadores de
infância que frequentaram os cursos de promoção a que alude o Despacho n.º 52/80, o tempo de serviço
prestado, no exercício efectivo das funções de educador de infância embora nas categorias de pessoal auxiliar
� vigilantes, ajudantes de creche e jardim- de- infância, monitores e também de auxiliares de educação �,
pelos actuais educadores de infância que ingressaram na carreira após a conclusão de cursos que se podem
qualificar como "normais" de educador de infância, reconhecidos pelo Governo no período de arranque do
ensino pré- escolar em Portugal.
Repare Vossa Excelência que estes profissionais contribuíram, à semelhança dos que frequentaram os cursos
de promoção especiais acima mencionados, com o seu trabalho e dedicação, para o desenvolvimento do
ensino pré- escolar em Portugal, tendo aliás procurado, a expensas próprias, aperfeiçoar- se e mesmo adquirir
habilitação adequada para o exercício da profissão.
De resto, nenhuma razão se vislumbra para que se possa distinguir entre as pessoas que, no mesmo período de
tempo, frequentaram com aproveitamento os cursos de promoção a que se refere o Despacho n.º 52/80, e as
que frequentaram com aproveitamento os cursos de educador de infância ministrados por estabelecimentos de
ensino, públicos ou privados, reconhecidos pelo Governo.
Afinal, os cursos de promoção a educador de infância a que se reporta o Despacho n.º 52/80 vieram conferir
equiparação ao curso de educador de infância, e eram inclusivamente ministrados nos estabelecimentos de
ensino, públicos ou particulares, onde eram ministrados os cursos de educadores de infância (cf. pontos 12 e
13 do Despacho n.º 52/80).
São as situações acima expostas, que a Lei n.º 5/2001 não contemplou, que se visa agora acautelar, isto é, a
contagem do tempo de serviço, para efeitos de progressão na carreira docente, prestado pelos actuais
educadores de infância nas categorias de pessoal auxiliar com funções pedagógicas, durante o qual exerceram
de facto, com carácter efectivo e regular, as funções inerentes à categoria de educador de infância,
profissionais esses que frequentaram, com aproveitamento, quer os cursos de promoção a educador de
infância criados pelo Despacho n.º 52/80, quer os cursos de educadores de infância ministrados pelos
estabelecimentos de ensino, públicos ou privados, para o efeito reconhecidos pelo Governo � neste último
caso, desde que tenham ingressado nos cursos no período que vai desde a criação do ensino pré- escolar em
Portugal até ao final do período de formação no âmbito dos cursos previstos no Despacho n.º 52/80 e
Despachos subsequentes, isto é, até ao ano lectivo de 1986/1987, data em que, segundo se apurou, foi possível
aceder, pela última vez, aos cursos de promoção.
Pode entender- se que, nesta mesma data, já o Estado teria de alguma forma procedido a um ajustamento dos
recursos humanos em apreço às necessidades do país.
No entanto, conforme já acima foi dito, muitos daqueles profissionais não terão ingressado na carreira docente
logo após a conclusão dos respectivos cursos, já que não existiriam, à data, lugares nos quadros de educador
No entanto, conforme já acima foi dito, muitos daqueles profissionais não terão ingressado na carreira docente
logo após a conclusão dos respectivos cursos, já que não existiriam, à data, lugares nos quadros de educador
de infância � apesar de poder ter existido um ajustamento dos recursos humanos às necessidades do país, o
legislador não procedeu imediatamente a uma adequação dos quadros de pessoal em apreço.
Assim sendo, pretende- se que seja contado, como se disse, aos profissionais em causa, o tempo efectivamente
prestado no exercício dessas funções, quer tal situação tenha ocorrido antes, durante ou após a conclusão de
qualquer um dos referidos tipos de curso � e desde que, quando estejam em causa os cursos de educador de
infância ditos "normais", as pessoas tenham ingressado nos mesmos até à data correspondente ao término do
período de formação dos cursos de promoção a que se reporta o Despacho n.º 52/80, isto é, até ao ano lectivo
de 1986/1987, segundo se apurou.
Assim sendo, ao abrigo do disposto no art.º 20.º, alínea b), da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril, RECOMENDO à
Assembleia da República, na pessoa de Vossa Excelência na qualidade de Presidente desse Órgão de
Soberania,que seja aprovada medida legislativa permitindo que seja contado, para efeitos de progressão na
carreira, aos actuais educadores de infância que, frequentando com aproveitamento os cursos de promoção a
educador de infância a que se referem o Despacho n.º 52/80, de 26 de Maio (publicado em 12 de Junho) e
Despachos subsequentes acima identificados, ou os cursos de educador de infância ministrados por
estabelecimentos, públicos ou privados, reconhecidos pelo Governo � e, neste caso, tenham ingressado nos
mesmos até ao ano lectivo de 1986/1987, o tempo de serviço durante o qual, enquanto detentores de
categorias de pessoal auxiliar com
funções pedagógicas � auxiliares de educação, vigilantes, ajudantes de creche e jardim- de- infância e
monitores �� aqueles profissionais exerceram, de forma efectiva e com carácter de regularidade �
antes, durante ou após a frequência e conclusão com aproveitamento dos cursos acima referidos e até à
integração nos quadros da carreira docente �, as funções inerentes à categoria de educador de infância.
O PROVEDOR DE JUSTIÇA
NASCIMENTO RODRIGUES