Provedor de Justiça
Recomendação n.º 3/B/2007
- Data
- 2007-07-17
- Meio processual
- RECOMENDAÇÃO
- Emitente
- Número: 3/B/2007
Texto integral (2210 palavras)
Número: 3/B/2007
Data: 17.07.2007
Entidade visada: Presidente da Junta de Freguesia de Jovim
Assunto: Taxa de uso de jazigos e capelas.
Processo: R-1916/07 (A6)
Recomendação n.º 3/B/2007
[art.º 20º, n.º 1, alínea b), da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril ]
1. Tendo presente o teor dos esclarecimentos prestados, em termos que desde
já se agradecem, a coberto da comunicação com a data e a referência em
epígrafe, cumpre, a propósito da problemática em apreço, tecer as
seguintes considerações.
2. Afirma V.ª Ex.ª que “a contra-prestação pública correspondente à
referida taxa, prende-se com a utilização gratuita dos concessionários de
Jazigos e Capelas, das partes comuns dos cemitérios, e dos serviços que a
Junta de Freguesia presta naquele equipamento, designadamente limpeza,
manutenção e conservação das partes comuns, incluindo os arruamentos
de acesso aos Jazigos e Capelas, utilização de um espaço geral para
deposição de cera e ainda pela água e luz, fornecidas gratuitamente para
que os concessionários possam limpar/lavar” os espaços concessionados.
3. No tocante a esta matéria, estabelece o artigo 1.º do Regulamento da Taxa
de Uso de Jazigos e Capelas, sob a epígrafe de “incidência” que “a taxa
de uso de Jazigos e capelas (TUJC) incide sobre as concessões perpétuas
de Jazigos e capelas dos cemitérios situados no território da Freguesia,
constituindo receita da Junta de Freguesia, enquanto entidade
proprietária e/ou gestora dos mesmos”.
4. Determina, por sua vez, o artigo 2.º do citado diploma regulamentar, que
se consideram jazigos os “terrenos cuja utilização foi exclusiva e
perpetuamente concedida pela Junta de Freguesia a requerimento dos
interessados”, entendendo-se como capelas os “jazigos em que foi
autorizada a edificação de um imóvel acima ou abaixo do solo, mediante
as regras estabelecidas no respectivo regulamento dos cemitérios”.
5. Definição essa, de resto consagrada no artigo 10.º da Tabela de Taxas e
Licenças anexa ao Regulamento de Liquidação e Cobrança de Taxas e
Licenças da Junta de Freguesia de Jovim, ao referir-se apenas ao “uso de
jazigos e capelas”, na limitação do âmbito da incidência da prestação em
causa.
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6. Resulta, assim, irrefutavelmente do quadro normativo em vigor nesta
matéria, que a taxa em apreço apenas é reconhecidamente aplicável, pela
Junta de Freguesia de Jovim, às situações decorrentes da concessão, a
título perpétuo, de espaços cemiteriais, em tratamento distinto daquele que
virá a ser dispensado aos titulares do direito de utilização temporária de
idênticas parcelas de terreno, localizadas nas mesmas infra-estruturas.
7. Relativamente à distinção estabelecida nos termos acima enuciados,
importa ter presente opinião doutrinária, nos termos da qual se afirma que
a “concessão de terreno cemiterial” é uma “concessão de ocupação, de
aproveitamento ou de utilização do domínio público”, feita através da
“instalação de jazigos e de sepulturas perpétuas” assim como de
“sepulturas reservadas durante certo período de tempo” (DIAS, VÍTOR
MANUEL LOPES, Cemitérios, Jazigos e Sepulturas, Monografia, pgs. 376-
377).
8. Ainda de acordo com o mesmo autor, “o regime jurídico não diverge
quanto aos efeitos de qualquer destas modalidades de ocupação do
domínio público”, uma vez que a concessão “não retira ao cemitério, nem
mesmo quanto à parcela concedida, o carácter de domínio público apesar
dos direitos conferidos aos particulares” (ob. cit. pg. 377, pg. 388).
9. Em bom rigor, a concessão de ocupação a título perpétuo, “a par de uma
grande «estabilidade», tem sempre o seu quê de «precária» por a sua
existência depender da subsistência do cemitério onde se localiza e,
porventura, de imperiosas necessidades de interesse público”, outras
vezes “em razão do abandono ou ruína a que chegaram” os espaços
concessionados (ob. cit. pg. 388).
10. Por sua vez, “nas concessões de ocupação” ditas temporárias ou a prazo,
“a sua natureza não difere das perpétuas dada a possibilidade da
renovação por sucessivos períodos as tornar potencialmente perpétuas.
São indefinidamente renováveis pelos períodos legalmente estabelecidos,
mediante o pagamento, por ocasião da renovação, da taxa estabelecida”
(ob. cit. pg.388-389).
11. Ora, na coerência de raciocínio acima evidenciada, afirma-se, em moldes
merecedores do meu aval, que os “termos da regulamentação pressupõem
a subordinação”, entre outros, ao princípio nos termos do qual a mesma
deve obedecer “a regras objectivas, gerais e impessoais, sem privilégios
nem discriminações de qualquer ordem” (ob. cit. pg. 443). Assim sendo,
cobrar-se-ão “taxas pela ocupação normal do domínio público (...)
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previamente fixadas de modo geral, impessoal e uniforme” (ob. cit. pg.
447).
12. Relativamente à quetsão em apreço, refere V.ª Ex.ª que a referida taxa, a
cobrar nos termos que antecedem, prende-se, entre outros aspectos, com a
utilização gratuita, pelos concessionários de Jazigos e Capelas, das partes
comuns dos cemitérios, e dos serviços que a Junta de Freguesia presta
naquele equipamento.
13. Assim sendo, e sem prejuízo da validade das considerações de ordem
doutrinária já aduzidas, importa desde já questionar V.ª Ex.ª sobre qual a
diferença de utilização dessas partes comuns dos cemitérios que possa, em
abstracto, ser notada entre os concessionários de jazigos e capelas, por um
lado, e os restantes utilizadores de sepulturas temporárias, não parecendo
existir fundamento racional bastante que justifique a desigualdade de
tratamento enunciada, nos termos constitucionalmente previstos.
14. De facto, à luz dos axiomas constitucionalmente consagrados, não posso
deixar de considerar atentatória do princípio da igualdade a situação
decorrente da aplicação do Regulamento da Taxa de Uso de Jazigos e
Capelas, conjugada com a Tabela de Taxas e Licenças anexa ao
Regulamento de Liquidação e Cobrança de Taxas e Licenças da Junta de
Freguesia de Jovim, apenas aos concessionários, a título perpétuo, de
espaços cemteriais geridos por essa autarquia local.
15. Em bom rigor, decorre do disposto no artigo 13.º da Constituição da
República Portuguesa, a exigência do “tratamento igual de situações de
facto iguais e um tratamento diverso de situações de facto diferentes”,
entendidas as mesmas, nessa diversidade, sob um ponto de vista material,
e não meramente formal, na concretização da ideia de justiça material
constitucionalmente acolhida (CANOTILHO, J. J. GOMES, MOREIRA,
VITAL, Constituição da República Portuguesa Anotada, pg. 127).
16. Na verdade, de acordo com opinião jurisprudencialmente consagrada
nesta matéria, importa ter presente que “o princípio constitucional da
igualdade, entendido como limite objectivo da discricionariedade
legislativa, não veda à lei a realização de distinções. Proíbe-lhe, antes, a
adopção de medidas que estabeleçam distinções discriminatórias (...) ou
seja, desigualdades de tratamento materialmente infundadas, sem
qualquer fundamento razoável ou sem qualquer justificação objectiva e
racional” (Acórdão do Tribunal Constitucional n.º 8167, publicado na II
Série do Diário da República, de 26 de Março de 1998).
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17. Ora, na situação em apreço, não se encontra, como atrás tive oportunidade
de o enunciar, qualquer justificação objectiva e racional para a
diferenciação das situações de concessão temporária na esfera de
incidência da referida taxa, razão pela qual considero, desde já, estar em
causa, na medida regulamentar assumida por essa autarquia local, o
respeito pela Constituição Portuguesa, consubstanciado na observância do
princípio da igualdade acolhido no seio daquela.
18. Mesmo que assim não fosse, abrangendo pois as taxas em apreço os
titulares do direito de ocupação de sepulturas temporárias, importa
equacionar a justiça relativa da imposição, de forma indiscriminada, da
cobrança dos valores em causa, de algum modo aqui se chamando à
colação o próprio conceito de taxa e o carácter sinalagmático de que esta
deve revestir.
19. No que se reporta à utilização gratuita das partes comuns dos cemitérios, e
dos serviços de limpeza que a Junta de Freguesia presta naquele
equipamento, devo recordar a V.ª Ex.ª que, na génese daquelas infra-
estruturas públicas, inicialmente pensadas em Portugal em finais do século
XVIII, estiveram sempre presentes imperiosas necessidades de regulação
do culto fúnebre, tanto em função dos aspectos associados à salvaguarda
da salubridade, assim como ao respeito e à decência daquele.
20. Assim sendo, concordará V.ª Ex.ª que a execução dos referidos trabalhos
de limpeza, bem como a utilização das partes comuns daqueles
equipamentos, se reportam, antes de mais, a serviços a prestar, pelas
autarquias locais, à comunidade, na fiel prossecução do interesse público
que presidiu, preside e presidirá à criação e manutenção dos cemitérios, na
assunção, pelo Estado, de função funerária, encarada como necessidade
pública.
21. Terá sido, aliás, com base em tal premissa que veio a estabelecer o artigo
34.º, n.º 4, alínea c) da Lei n.º 169/99, de 18 de Setembro, na redacção a
esta actualmente dada pela Lei n.º 5-A/2002, de 11 de Janeiro, incumbir à
Junta de Freguesia “gerir, conservar e promover a limpeza dos
cemitérios”.
22. Por esta razão, cabendo ao órgão autárquico presidido por V.ª Ex.ª, no
âmbito das atribuições a este legalmente cometidas, assegurar a gestão e
conservação dos cemitérios situados na freguesia de Jovim, assim como a
promoção da limpeza daqueles, considero destituído de fundamento o
argumento aduzido por forma a legitimar, parcialmente, a cobrança da
taxa em apreço.
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23. Aliás, importa fazer notar que a referida utilização das partes comuns,
assim como a limpeza e conservação das mesmas, serão inerentes à
relação jurídica estabelecida entre os concessionários de espaços
cemiteriais e as autarquias locais, em termos que não permitem outra
interpretação que não seja a da eventual imputação dos seus custos no
valor da concessão (temporária ou perpétua).
24. No que se reporta ao fornecimento de água e de luz para limpeza dos
espaços cemiteriais concessionados, e partindo do pressuposto da
aplicação uniforme, e àquela restrita, das taxas em causa (concessão
perpétua e temporária), importa fazer notar alguns aspectos, merecedores
de particular atenção.
25. Resulta da posição adoptada pela Junta de Freguesia de Jovim que todos
os concessionários deverão pagar a mesma taxa, independentemente da
utilização que, em concreto, venha a ser feita dos serviços
disponibilizados.
26. Ora, permito-me sugerir a V.ª Ex.ª que equacione a situação em que, não
raras vezes, se encontram muitos espaços cemiteriais concessionados a
pessoas que, pelas mais variadas razões, desde logo em virtude do
fenómeno migratório (transfronteiriço ou não) que caracteriza a realidade
social do nosso país, não residem na freguesia onde o cemitério se
localiza.
27. Concessionários esses que, regressando aos locais de onde são naturais,
escassas semanas por ano, não utilizam, objectivamente, qualquer espaço
ou serviços disponibilizados ou a disponibilizar por essa Junta de
Freguesia, nos moldes agora reclamados.
28. Em bom rigor, a ser do modo que aparentemente resulta do entendimento
perfilhado pela Junta de Freguesia de Jovim, e que agora me é
comunicado, permito-me questionar se, na verdade, atenta a possibilidade
de estarmos, em algumas situações, perante uma ténue, para não dizer
inexistente sinalagmaticidade da relação estabelecida entre
concessionários lato sensu considerados (jazigos, capelas e sepulturas
temporárias), não estaremos perante figura diversa da taxa, mais próxima,
nas características que se têm vindo a apurar, do imposto (para cuja
criação se exige lei parlamentar ou decreto-lei autorizado).
29. Não poderá V.ª Ex.ª deixar de concordar que fará mais sentido a
imputação de despesas a quem, efectivamente, usufrui dos bens ou dos
serviços cobrados, do que a exigência do seu pagamento, formulada em
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termos genéricos, por todos os concessionários, independentemente de em
concreto utilizarem os serviços alegados.
30. Por esta razão, e no que se reporta à disponibilização dos serviços de água
e de luz, tendo em vista a limpeza dos espaços cemiteriais concessionados
(referindo-me naturalmente aqui a todo e qualquer tipo de concessão –
temporária e perpétua), entendo que a mesma, a ser taxada, deverá tomar
como base o princípio do utilizador-pagador, assegurando-se, assim, a
justiça material da medida adoptada.
31. Aliás, a aplicação de semelhante princípio mostrar-se-á facilitada, atenta a
existência de equipamentos de medição, instalados pelas empresas
fornecedoras daqueles serviços, passíveis de assegurar a rigorosa
imputação aos concessionários, dos custos associados à utilização que os
mesmos venham a fazer daqueles.
32. No que concerne à utilização de um espaço geral para deposição de cera, e
embora desconhecendo a exacta natureza do equipamento citado, admito
que deixem de se verificar as facilidades acima enunciadas. Todavia, tal
facto não pode, por si só, legitimar a aplicação da taxa em apreço, em
desrespeito pela noção que da mesma vem sendo doutrinária e
jurisprudencialmente defendida, mas antes determinar a criação de
métodos de controlo individualizável da sua utilização.
Deste modo, entendo por bem recomendar, nos termos do art.º 20.º, n.º 1, b),
da Lei n.º 9/91, de 9 de Abril,
a) a alteração do artigo 1.º e do artigo 2.º do Regulamento da Taxa de
Uso de Jazigos e Capelas, por forma a que a mesma taxa, a ser
mantida, abranja por igual todos os utentes dos serviços
disponibilizados (mas só estes), na estrita medida do serviço que a
cada um é efectivamente prestado;
b) a alteração do artigo 9.º do citado diploma regulamentar, assim como
do artigo 10.º da Tabela de Taxas e Licenças anexa ao Regulamento
de Liquidação e Cobrança de Taxas e Licenças da Junta de Freguesia
de Jovim, no sentido de virem a ser eliminadas quaisquer referências
aos custos associados à gestão, conservação e limpeza das partes
comuns do cemitério paroquial, ponderando-se, em substituição
daquelas, única e exclusivamente, a consagração das despesas
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concretamente realizadas na utilização de água e de luz, assim como
no âmbito da deposição de cera, por parte dos concessionários.
Sem prejuízo de quaisquer outros esclarecimentos que entenda por bem prestar
nesta matéria, agradeço a V.ª Ex.ª que queira comunicar-me qual a posição
adoptada pela Junta de Freguesia de Jovim face à presente Recomendação.
O Provedor de Justiça,
H. Nascimento Rodrigues
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