Diário da República, 1.ª série
Resolução do Conselho de Ministros n.º 68/2021
- Data
- 2021-06-04
- Tipo
- Resolução do Conselho de Ministros
- Emitente
- PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS
Texto integral (26 440 palavras)
Resolução do Conselho de Ministros n.º 68/2021
Sumário: Aprova a Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030.
Portugal tem jurisdição sobre cerca de metade das águas marinhas da União Europeia, em
espaços adjacentes ao continente europeu, e sobre uma vasta área de solo e subsolo marinhos
no Atlântico Nordeste. Este facto constitui-se como razão da responsabilidade acrescida que Por-
tugal deve assumir nas questões ligadas à governação do oceano, incluindo a sua conservação,
conhecimento e defesa. Nas últimas décadas, Portugal redobrou esforços para estar à altura destas
responsabilidades, liderando várias iniciativas internacionais de impacto reconhecido, designada-
mente a Comissão Mundial Independente para os Oceanos, cujo vigésimo quinto aniversário se
assinalou há poucos meses, a criação do Centro Internacional de Investigação do Atlântico (AIR
Centre) e a organização da segunda Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, que estava
planeada para 2020 em Lisboa e aguarda a definição de nova data.
A avaliação das estratégias nacionais para o mar, que vigoraram até 2020, permite concluir
pela importância destes instrumentos políticos e estratégicos para o fomento da economia do mar,
ao gerarem dinâmicas sinérgicas e promoverem os laços entre universidades e centros de inves-
tigação, indústria, empresas, sociedade civil e entidades da Administração Pública. No entanto,
apesar do balanço positivo desde a aprovação da primeira Estratégia Nacional para o Mar, publicada
em anexo à Resolução do Conselho de Ministros n.º 163/2006, de 12 de dezembro, regista-se que
existem ainda desafios que precisam de ser superados e significativas oportunidades que estão
por explorar. Em setores tradicionais, como as pescas, há ainda um caminho a percorrer para
modernizar o setor, aumentar o rendimento médio dos pescadores, estimular mais iniciativas de
desenvolvimento local em comunidades costeiras e piscatórias e mitigar os impactos ecológicos da
atividade, tornando-a verdadeiramente sustentável. Setores emergentes, como a biotecnologia azul,
as energias renováveis oceânicas ou a robótica marinha, ainda enfrentam dificuldades no acesso a
financiamento para projetos inovadores e na capacidade competitiva no mercado global. Novas e
velhas profissões do mar carecem de qualificação e de formação especializada e reajustada para
dar resposta às necessidades atuais, cada vez mais tecnológicas, da economia azul. Por outro lado,
as mudanças de comportamento necessárias para travar a degradação dos ecossistemas marinhos
e para desenvolver atividades sustentáveis e competitivas carecem de constante investimento na
educação formal e na literacia do oceano. Do mesmo modo, persistem os desafios na governação
do oceano e das zonas costeiras, nomeadamente, para encontrar soluções políticas eficazes e
coerentes para melhor agilizar as competências partilhadas pelo Estado e as Regiões Autónomas
no que respeita ao ordenamento e à gestão do espaço marítimo.
Neste contexto, e dando cumprimento ao disposto no Programa do XXII Governo Constitu-
cional, é adotada a Estratégia Nacional para o Mar para o período 2021-2030 (ENM 2021-2030),
alinhada com a Estratégia Portugal 2030, aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros
n.º 98/2020, de 13 de novembro. Esta nova estratégia surge após um processo de consulta pública
muito fértil e participado, durante o qual foram feitas várias apresentações públicas em diversos
pontos do território nacional e, como tal, incorpora os contributos e interesses dos diversos seto-
res diretamente ligados ao mar. Adicionalmente, foram também considerados os contributos que
resultam de outras estratégias, políticas, planos e programas nacionais que, sendo transversais,
concorrem para as políticas do mar e para os compromissos europeus e internacionais assumidos
por Portugal.
Tendo como base a importância do conhecimento científico, da defesa e valorização dos
serviços dos ecossistemas marinhos e do reconhecimento do seu papel como vetores de desen-
volvimento sustentável, a ENM 2021-2030 tem como propósito potenciar o contributo do mar para
a economia do País, a prosperidade e bem-estar de todos os portugueses, dar resposta aos gran-
des desafios da década e reforçar a posição e visibilidade de Portugal no mundo enquanto nação
eminentemente marítima.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 24
A ENM 2021-2030 adota uma estrutura distinta das suas duas antecessoras uma vez que os
seus princípios orientadores estão alinhados com a Agenda 2030 das Nações Unidas, com o Pacto
Ecológico Europeu, com a Política Marítima Integrada da União Europeia, a Política Comum de
Pescas e com as recentes Estratégia de Biodiversidade da UE 2030, Estratégia do Prado ao Prato
e Missão Estrela-do-Mar 2030: Recuperar o nosso Oceano e Águas, apresentadas pela Comis-
são Europeia. Este alinhamento internacional da ENM 2021-2030 garante não só a continuidade
nacional das grandes tendências globais, como permitirá um maior alinhamento das políticas, dos
instrumentos financeiros e dos desenvolvimentos económicos entre Portugal, a União Europeia e
os principais mercados internacionais.
A ENM 2021-2030 entra em vigor numa década marcada pelos impactos de uma pandemia na
economia e nas sociedades mundiais e pela necessidade de respostas mais firmes à emergência
climática, à delapidação da biodiversidade e dos ecossistemas, à acidificação e desoxigenação
do oceano e à poluição por plásticos e outros agentes nocivos, bem como aos enormes impactos
sociais daí decorrentes. Nesta conjuntura desafiante, em que as ameaças globais sobressaem de
forma pungente, a ENM 2021-2030 procura contribuir para a relevância e credibilidade de Portugal
na comunidade internacional, onde o País é chamado a ter um papel ativo na procura de soluções
globais, devendo liderar pelo exemplo.
A avaliação e monitorização das anteriores estratégias nacionais para o mar revelaram que
a economia do mar em Portugal tem evidenciado grande resiliência mesmo em períodos de forte
retração económica, como entre 2010 e 2013. Aliás, o valor acrescentado gerado pelas empresas
da economia do mar e o seu contributo para o emprego à escala nacional têm mesmo aumentado
consistentemente desde 2013 e a Conta Satélite do Mar revelou que, em 2018, a economia do
mar representou mais de 5 % do produto interno bruto e, aproximadamente, 5 % das exportações
nacionais e 4 % do emprego. Simultaneamente, entre 2014 e 2018, verificou-se um aumento con-
sistente do investimento em investigação e desenvolvimento aplicado à economia do mar, apesar
da contribuição efetuada pelas empresas, a este nível, ainda ser relativamente baixa.
Por último, a implementação da ENM 2021-2030 é assegurada por um plano de ação, com-
posto por um conjunto de projetos, ações, programas e estratégias setoriais, a aprovar em diploma
próprio, bem como por uma monitorização e avaliação regular através do acompanhamento de
indicadores e de concretizações. Este plano de ação serve também como instrumento de monitori-
zação da ENM 2021-2030, através de indicadores de resultados, produtos relevantes e indicadores
financeiros, bem como do respetivo estado de implementação. A revisão periódica do plano de ação
permite a sua articulação com instrumentos orientadores de políticas nacionais, como o Programa
do Governo e a Lei das Grandes Opções.
A proposta da ENM 2021-2030 esteve em discussão pública de 28 de setembro a 16 de
novembro de 2020, da qual resultou o documento final que aqui se apresenta.
Foram ouvidos os órgãos de governo próprio das Regiões Autónomas.
Assim:
Nos termos da alínea g) do artigo 199.º da Constituição, o Conselho de Ministros resolve:
1 — Aprovar a Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030 (ENM 2021-2030), constante do
anexo à presente resolução e que dela faz parte integrante.
2 — Estabelecer que o plano de ação que visa assegurar a implementação da ENM 2021-2030,
composto por um conjunto de projetos, ações, programas e estratégias setoriais, deve ser aprovado
no período de 60 dias após a entrada em vigor da presente resolução.
3 — Determinar a disponibilização da versão integral da ENM 2021-2030 no sítio na Internet
da Direção-Geral de Política do Mar (DGPM).
4 — Determinar que a DGPM elabora um relatório anual com a avaliação do estado da imple-
mentação da ENM 2021-2030, o qual é disponibilizado no respetivo sítio na Internet.
5 — Estabelecer que a execução da ENM 2021-2030 se desenvolve no quadro das atribuições
das entidades legalmente competentes em razão da matéria.
6 — Determinar que a presente resolução produz efeitos a partir da data da sua aprovação.
Presidência do Conselho de Ministros, 6 de maio de 2021. — O Primeiro-Ministro, António
Luís Santos da Costa.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 25
ANEXO
(a que se refere o n.º 1)
Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030
1 — Introdução
Portugal é um país oceânico, com uma linha de costa de cerca de 2500 km, contando com
uma das maiores zonas económicas exclusivas do mundo que se estende por 1,7 milhões de km2,
incluindo uma grande diversidade de ecossistemas e de recursos. O triângulo marítimo português
(continente, Madeira e Açores) constitui 48 % da totalidade das águas marinhas sob jurisdição dos
Estados-Membros da União Europeia (UE) em espaços adjacentes ao continente europeu. Acresce
a importância da plataforma continental estendida para além das 200 milhas náuticas, cujo processo
de delimitação está a decorrer junto das Nações Unidas, e que aumenta para 4 100 000 km2 a área
abrangida pelos espaços marítimos sob soberania ou jurisdição nacional, alargando assim direitos
de soberania, para além da Zona Económica Exclusiva (ZEE), para efeitos de conservação, gestão
e exploração de recursos naturais do solo e subsolo marinhos, e que tornará Portugal ainda mais
atlântico.
Um regresso ao mar foi o grande empreendimento que Portugal começou no final do século XX e
continuou ao longo do século XXI. Uma aposta inspirada não só na nossa história e cultura marítimas,
mas principalmente na visão hodierna de que o oceano é um sistema essencial para a vida no pla-
neta e para a sociedade. Ao entrarmos na terceira década do século XXI, reforçamos a importância
deste compromisso e do avanço visionário que Portugal teve desde o fim do século passado.
Ainda no século XX, foi lançado o Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias do Mar,
publicado o relatório «O Oceano — nosso futuro», e teve lugar a Exposição Mundial de 1998, que
trouxe o oceano para a sociedade. Depois, já no século XXI, surgiu a proposta transformadora da
Comissão Estratégica dos Oceanos, seguida de duas Estratégias Nacionais para o Mar, e ainda
o relatório «Hypercluster da Economia do Mar», de 2009. Em termos de clusters não podemos
deixar de referir a criação do Oceano XXI e do Fórum Empresarial da Economia do Mar, que se
fundiriam no Fórum Oceano. Ou ainda a iniciativa da PwC, do seu Barómetro da Economia do Mar
e dos prémios Excellens Mare.
Durante esta viagem através do novo século XXI temos de reconhecer que progredimos, mas
aquém das ambições. E ficámos aquém porque o enquadramento internacional e, em menor grau,
europeu, não deu a prioridade devida ao oceano, especialmente no que concerne ao investimento,
à afetação de recursos financeiros, ao reconhecimento da dimensão cultural que o mar integra e
à impregnação e destaque em acordos de ação global.
A ligação emocional e racional, e o reconhecimento político do papel vital do oceano, falhava
em termos de relevância no contexto internacional, à parte de um conjunto restrito de nações onde
se inclui Portugal.
Nos últimos cinco anos o «ecossistema político» relativo às questões dos oceanos deu um
salto epistemológico a nível internacional:
1) As Nações Unidas publicaram em 2015 o seu primeiro relatório do «Processo Regular de
Avaliação Global do Estado do Ambiente Marinho, incluindo aspetos socioeconómicos», iniciando
assim um ciclo de avaliações regulares sobre o «estado do Oceano mundial». Esta avaliação foi
seguida por uma segunda avaliação em 2017 que foi aprovada durante a 75.ª sessão da Assem-
bleia Geral das Nações Unidas;
2) Durante 25 anos de agendas de objetivos mundiais de desenvolvimento, que começaram
nos anos 90 do século XX com os sete Objetivos Internacionais de Desenvolvimento da OCDE e
continuaram com os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milénio da ONU em 2001, o oceano
não foi considerado como objetivo ou alvo. Mas, em 2015, os Objetivos de Desenvolvimento Sus-
tentável da ONU, afirmados na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, incorporaram
pela primeira vez — com o contributo de Portugal — um objetivo autónomo relacionado com o
oceano, o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 14 — Conservar e usar de forma sustentável
os oceanos, mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. Pouco depois, as
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 26
Nações Unidas anunciaram também uma Década das Ciências do Oceano para o Desenvolvimento
Sustentável, juntamente com uma Década da Restauração dos Ecossistemas, ambas a serem
implementadas entre 2021-2030;
3) Em 2018, os chefes de governo de 14 países, entre os quais Portugal e a Noruega, como
únicas nações europeias, criam o Painel de Alto Nível para uma Economia Sustentável dos Oceanos,
na qual a oportunidade de negócios e o investimento financeiro são centrais no desenvolvimento
da economia azul;
4) O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) publicou em 2019 o seu
primeiro relatório sobre o oceano (e a criosfera). As Conferências «Our Ocean» tiveram início em
2014. A primeira Conferência dos Oceanos das Nações Unidas teve lugar em 2017, e a segunda
conferência esteve planeada para 2020 em Lisboa, sendo adiada devido à pandemia da doença
COVID-19. Em 2019, a OCDE lançou a iniciativa «Sustainable Ocean for All», tendo publicado o
seu primeiro relatório em 2020;
5) Em 2020, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente lança o seu primeiro relatório
sobre habitats marinhos costeiros que armazenam carbono sob o título «Out of the Blue»;
6) Por último, uma das cinco missões do programa Horizonte Europa, o programa de inves-
tigação e inovação da UE para o período 2021-2027, é centrada no oceano (oceanos saudáveis,
mares costeiros e águas interiores), contribuindo de forma significativa para o estratégico Pacto
Ecológico da UE, parte do compromisso europeu de implementar a Agenda 2030 da ONU. Ainda
a nível da UE, podemos acrescentar a criação, em 2020, do Fundo Azul de Investimento e das
Obrigações Azuis.
A agenda internacional do oceano ganhou um novo poder e uma nova dimensão nos últimos
cinco anos. Nesta nova década, o oceano será devidamente recentrado nas dimensões ambiental,
social, económica e geopolítica. O mundo está a reconhecer a importância vital do oceano para os
seres humanos e para o planeta. A Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030 (ENM 2021-2030)
está ancorada nestes instrumentos internacionais e contribui para os seus objetivos, reforçando,
ao mesmo tempo, o mar como espaço de soberania. Urge continuar a dar um rumo às políticas
do mar e fortalecer o posicionamento geopolítico e geoestratégico de Portugal. A ENM 2021-2030
beneficiou do processo de aprendizagem decorrente da avaliação das suas duas antecessoras e
continua a ser o principal instrumento político a nortear transversalmente a Política do Mar em Por-
tugal. Continua, também, a enquadrar e salvaguardar as especificidades das Regiões Autónomas
dos Açores e da Madeira, cujas vulnerabilidades, potencialidades e oportunidades são particulares,
tanto a nível nacional como a nível da União Europeia, designadamente no acompanhamento das
políticas relativas às regiões ultraperiféricas.
Em 2013, a Fundação Calouste Gulbenkian lançou a Iniciativa Gulbenkian Oceanos, que
durante cinco anos desenvolveu atividades nos domínios do conhecimento, consciência ambiental
e políticas de gestão. Mais recentemente, em 2017, foi criada a primeira fundação privada nacio-
nal dedicada ao oceano, a Fundação Oceano Azul, que está a renovar a capacidade de influência
nacional através da liderança de clusters de organizações internacionais. Por fim, temos a «Visão
Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030», preparada pelo
Professor António Costa Silva, onde o oceano volta a estar recentrado e onde tem claramente um
papel catalisador.
Parte desta renovada dinâmica política deriva do reconhecimento crescente do contributo das
atividades económicas ligadas ao mar para a criação de riqueza e emprego. Em todo o mundo,
populações, e os respetivos representantes políticos, ganharam consciência do valor e potencial
económico do oceano e da sua vulnerabilidade à ação humana. Na UE, a estratégia «Crescimento
azul», um dos pilares da Política Marítima Integrada, foi aprovada em 2012 e teve por objetivo
apoiar o crescimento sustentável no conjunto dos setores da economia do mar, reconhecendo a
importância dos mares e oceanos enquanto motores da economia europeia e o seu grande potencial
para a inovação. Portugal passou a acompanhar a relevância económica do mar na sua economia
nacional através de uma Conta Satélite do Mar, que resultou de um protocolo entre o Instituto
Nacional de Estatística, I. P. (INE, I. P.), e a Direção-Geral de Política do Mar (DGPM) celebrado
em 2013. Em 2018, a economia do mar representou 5,1 % do nosso produto interno bruto (PIB),
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 27
5 % das exportações nacionais e 4 % do emprego. Estes valores estão entre os mais altos nos
Estados-Membros da UE.
A sustentabilidade da economia azul depende da conservação do ambiente marinho e dos
serviços dos seus ecossistemas, bem como da salvaguarda do património cultural marítimo, em
linha com a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030. O Plano de
Situação de Ordenamento do Espaço Marítimo Nacional, as Linhas de Orientação Estratégica e
Recomendações para a Implementação de uma Rede Nacional de Áreas Marinhas Protegidas apro-
vados em 2019, assim como a avaliação do Bom Estado Ambiental das Águas Marinhas reportada
recentemente em cumprimento da Diretiva-Quadro «Estratégia Marinha», representaram importantes
marcos para assegurar o nosso compromisso na defesa dos ecossistemas marinhos e do património
cultural náutico e subaquático. Este compromisso de Portugal com a proteção do ambiente marinho
e com a sustentabilidade das atividades económicas que decorrem no mar norteia as posições que
o País assume em organismos e convenções internacionais de que é signatário.
Portugal deve assumir definitivamente as vantagens competitivas da sua posição geoestraté-
gica, das suas competências tecnológicas e da sua tradição marítima, minimizando barreiras admi-
nistrativas ou fiscais que se revelem prejudiciais à mesma, investindo na qualificação de recursos
humanos e exercendo a autoridade do Estado no mar. O padrão que estabelecermos na gestão
sustentável do nosso mar será uma contribuição decisiva para a sustentabilidade do planeta, num
futuro que desejamos mais azul para as gerações vindouras.
2 — Ponto de partida
Na definição de uma estratégia é importante conhecer-se o ponto de partida e decidir-se onde
queremos chegar. Igualmente importante, é a capacidade de se retirarem lições da experiência
acumulada, designadamente através da análise dos efeitos de estratégias anteriores e das respe-
tivas medidas e planos de implementação.
As antecessoras da ENM 2021-2030 foram objeto de monitorização relativamente à sua imple-
mentação. O acompanhamento dos seus impactos, especialmente desde 2013, foi feito através de
um conjunto de indicadores económicos e sociais, sistematizado em Relatórios Anuais da Economia
do Mar, resultantes de uma parceria entre a DGPM, o INE e outros organismos da Administração
Pública fornecedores de informação relevante, do projeto SEAMInd (indicadores e monitorização
de suporte à Estratégia Nacional para o Mar), e de relatórios anuais de monitorização integrada
da utilização dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento no Mar (ITIMAR). A par desta
informação, os dados da Conta Satélite para o Mar são uma peça fundamental para o acompa-
nhamento e análise do impacto das políticas públicas neste domínio, na medida em permitem uma
visão macroeconómica integrada da economia do mar.
Com base nesta monitorização, sabemos que em 2018 a economia do mar representou 5,1 %
do produto interno bruto (PIB) e 5 % das exportações nacionais. Neste ano, o valor acrescentado
bruto (VAB) da economia do mar atingiu os 7,2 mil milhões de euros e as exportações de produ-
tos do mar foram de 4,5 mil milhões de euros. No período 2016-2017, foram identificadas cerca
de 53 mil entidades cuja atividade se enquadra na economia do mar. No triénio 2016-2018, a
economia do mar apresentou um melhor desempenho do que a economia nacional, sendo o efeito
direto das atividades da economia do mar de 3,9 % do VAB e de 4,0 % no emprego (2016-2017)
a nível nacional. A economia do mar registou um crescimento na ordem dos 18,5 % no VAB e de
8,3 % no emprego, o que representa praticamente o dobro do registado pela economia nacional
como um todo (respetivamente 9,6 % e 3,4 %). Já no quadriénio 2010-2013, no rescaldo de uma
crise financeira mundial, a economia do mar em Portugal tinha apresentado um desempenho mais
favorável do que o da atividade económica nacional. Nesse período, enquanto a economia nacional
registou uma contração significativa, verificando-se uma diminuição de 5,4 % do VAB, o VAB gerado
pelos setores ligados ao mar cresceu 2,1 %, enquanto o emprego diminuiu a uma taxa inferior à
da economia nacional como um todo (3,4 % e 10,0 %, respetivamente).
É possível constatar que o aumento do peso relativo do VAB, assim como do emprego reflete,
fundamentalmente, o crescimento das atividades favorecidas pela proximidade do mar, cujo VAB
e emprego registaram aumentos de 128,6 % e 51,7 % face ao período 2010-2013, beneficiando
do dinamismo observado na atividade turística a nível nacional. Os relatórios da Conta Satélite do
Mar até à data publicados dão conta do caminho perseverante e consistente da economia do mar
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 28
no contexto de outros setores económicos. Assente nas linhas de crescimento económico, susten-
tadas pelo dinamismo da procura externa, o superavit da balança de produtos do mar aumentou
53,4 % entre 2016 e 2018, o que contrasta com o sentido inverso registado na balança comercial
nacional, que decresceu mais de metade (-55,7 %). Uma análise dos setores mais representativos
da economia do mar também evidencia tendências favoráveis na última década.
A fileira do pescado em Portugal (pesca, aquicultura, transformação e comercialização dos
seus produtos) representou 1,8 mil milhões de euros de VAB em 2018 e 62,3 mil empregos em
2017. Entre 2013 e 2019, o número de embarcações licenciadas e o número de pescadores matri-
culados diminuiu 14 % e 13 %, respetivamente. O valor de peixe descarregado aumentou 3 %, tal
como o valor de capturas em 17 %, contudo o volume de capturas diminui 5 %. Entre 2013 e 2018
a produção e as vendas no setor aquícola cresceram 41 % e 124 %, respetivamente.
Em 2019, estavam registados 14 617 pescadores e licenciadas 3902 embarcações no setor
da pesca, equivalendo a 50,2 % do número total de embarcações, 86,1 % do total da arqueação
bruta e 81,6 % do total da potência da frota. O total de capturas da frota portuguesa resultou em
188 537 toneladas (43 841 em águas externas e 144 696 em águas nacionais). Entre portos na-
cionais e não nacionais foram descarregadas 171 717 toneladas (86 % fresco e 80 % em portos
nacionais). Do total capturado, 137 669 toneladas corresponderam a pescado fresco ou refrigerado,
transacionado em lota no valor de 295,3 milhões euros. Nesse ano, as exportações da fileira do
pescado (produtos da pesca e da aquicultura e da indústria de congelados e conservas de peixe)
representaram cerca de 1,8 % das exportações portuguesas de bens.
Em 2018, a produção aquícola total foi de 13 992 toneladas e as vendas geraram uma receita
de 96,8 milhões de euros. A produção em águas de transição e marinhas manteve-se predominante,
correspondendo a 95 % da produção total (9400 toneladas de moluscos e crustáceos e 3860 tone-
ladas de peixes). Em 2018, a indústria transformadora da pesca e aquicultura atingiu uma produção
total de 220 mil toneladas (52,7 % congelados, 25,5 % secos e salgados e 21,8 % preparações
e conservas) e faturou 1067 milhões de euros. Estes valores revelam um decréscimo de 10,5 %
nas quantidades produzidas, mas de um aumento dos valores transacionados de 25,7 % quando
comparados com os resultados de 2013.
Os recursos marinhos não vivos representaram 60 milhões de euros de VAB (2018) e 1720
empregos em Portugal (2017). Em 2019, a produção de sal marinho no continente foi de 108 mil
toneladas numa área total de 1112 hectares, o que traduz um acréscimo de 16,2 toneladas de sal
marinho produzido (+17,8 %) e de 157 hectares (+16.4 %) na respetiva área de produção relati-
vamente a 2013.
A atividade dos portos, transportes e logística em Portugal representou 745 milhões de euros
de VAB em 2018 e 12 173 empregos (2017). Em 2019, o volume de carga movimentada nos portos
do continente atingiu os 86 milhões de toneladas, 1,6 milhões de contentores e 2,7 milhões de TEU,
o que se traduziu num crescimento respetivo de 9 %, 18 % e 24 % relativamente a 2013.
O recreio, desporto, cultura e turismo representaram 3,2 mil milhões de euros VAB (2018) e
78 195 empregos em Portugal (2017). Este grupo de atividades foi o principal gerador de valor
acrescentado no contexto da economia do mar de Portugal, como reflexo, principalmente, da dinâ-
mica do turismo costeiro, representando 43,1 % do VAB da economia do mar entre 2016 e 2018,
situação em linha com o sucedido no triénio 2010-2013, no qual este agrupamento de atividades
representou 35,5 % do VAB. Em 2019, o turismo de cruzeiros registou 903 escalas em Portugal,
com cerca de 1 436 000 passageiros, como reflexo do aumento da procura turística. No ano de
2020, nas freguesias costeiras, estavam registadas 2543 empresas de animação turística (65, em
2013) e 906 operadores (36, em 2013). Por outro lado, no mesmo ano, no universo de 488 praias
costeiras e de transição, 95,6 % (460) tiveram uma qualidade excelente, em comparação com as 413
classificadas com este estatuto em 2013 (91,9 %). Em 2019, foram registadas 1367 embarcações
de recreio, número recorde dos últimos 10 anos e mais do dobro das registadas em 2013 (610), e
emitidas 12 123 cartas de navegador de recreio. Ainda em 2019, foram emitidas 187 894 licenças
de pesca lúdica (+13,5 % relativamente a 2013), assistindo-se a uma predominância das licenças
de pesca apeada (71,6 % e 56 % e do total de licenças emitidas em 2013 e 2019, respetivamente).
A construção, manutenção e reparação navais representaram 164 milhões de euros de VAB
(2018) e 4883 empregos em Portugal (2017), enquanto as atividades fornecedoras de equipa-
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 29
mento marítimo representavam 217 milhões de euros de VAB (2018) e 6955 empregos em 2017.
As infraestruturas e obras marítimas representaram 284 milhões de euros de VAB em 2018, asse-
gurando 6455 empregos em Portugal (2017). Os serviços marítimos representaram nesse período
755 milhões de euros de VAB (2018) e 16 247 empregos (2017).
O VAB das atividades dos novos usos e recursos do mar (onde se incluem atividades emergen-
tes, como a biotecnologia marinha, as energias renováveis oceânicas e os serviços de observação
da terra) atingiu os 8 milhões de euros em 2018 e manteve 351 empregos em Portugal (2017).
Até 2020 foram atribuídos quatro Títulos de Utilização Privativa do Espaço Marítimo Nacional para
a produção e teste de energias renováveis oceânicas com uma potência instalada de 25,42 MW.
A ciência, a inovação e a tecnologia assumiram um papel primordial para dar corpo a um
tecido empresarial de base tecnológica e inovadora, com reforço do emprego qualificado. Entre
2014 e 2019, a despesa em I&D na economia do mar representou 3,6 % do total das despesas de
I&D nacionais (433,6 milhões de euros). As instituições do ensino superior representaram 64,4 %
deste valor, seguindo-se o Estado (20,7 %), as empresas (14,7 %) e as instituições privadas sem
fins lucrativos (0,2 %).
No decorrer da última década fortaleceram-se significativamente os instrumentos de financia-
mento nacionais e europeus dedicados à investigação científica e à economia do mar. Até finais
de 2019, a aposta na economia do mar traduziu-se no apoio a 5241 operações na área do mar,
num investimento total que rondou os 2,6 mil milhões de euros, no âmbito do Portugal 2020. Foi
lançado o Fundo Azul que, entre 2017 e 2020, comprometeu 34,3 milhões de euros para apoio
a projetos de economia azul, investigação científica, proteção do ambiente marinho e segurança
marítima. O Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (EEA Grants) iniciou um novo
ciclo (2014-2021, prolongando-se até 2024) com um reforço substancial do programa dedicado
ao mar, que passou a dispor de 44,7 milhões de euros — o maior programa deste mecanismo
financeiro em Portugal (em final de 2020 já estavam comprometidos 10,6 milhões de euros). Foi
no quadro do EEA Grants que se financiou a aquisição do novo navio oceanográfico Mário Ruivo,
e o seu reequipamento com tecnologia moderna, que o habilitou a executar missões de geotecnia
marinha, oceanografia, operações com ROV (remotely operated vehicles), levantamentos geofísicos
e operações de pesca de arrasto, tendo-se expandido substancialmente a capacidade de Portugal
fazer investigação no mar.
Também deve ser referido o investimento do Ministério do Mar, através do seu Laboratório
de Estado, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, I. P. (IPMA, I. P.), que entre 2013 e 2020
atingiu os 78 milhões de euros, na promoção da investigação científica, do desenvolvimento tec-
nológico e inovação no domínio do mar, bem como na gestão do bom estado ambiental da área
marítima sob jurisdição nacional.
O sucesso das estratégias que antecederam a ENM 2021-2030 não se mede apenas com
indicadores económicos e financeiros. A mobilização ativa da sociedade através da literacia do
oceano tem também sido assumida como uma prioridade, nomeadamente através do alargamento
do conceito da Escola Azul a um número crescente de escolas. A Direção-Geral da Educação,
através do Projeto Centros de Formação Desportiva Náuticos (CFD) do Desporto Escolar, criado
no âmbito da anterior Estratégia Nacional para o Mar, com 13 CFD e 9000 alunos, conta hoje com
mais de 59 CFD de atividades náuticas em todo o País, nas modalidades de canoagem, surfing,
vela e remo, por onde passam anualmente mais de 80 000 alunos para participar em atividades
educativas e desportivas, nos mais diversos planos de água — mar, rios, albufeiras e espaços
lagunares. Em 2020, o trabalho em conteúdos escolares, com professores de diferentes níveis do
ensino, envolveu 32 000 alunos, 2930 professores e 235 estabelecimentos de ensino. Os próximos
passos envolvem a internacionalização do conceito de Escola Azul à escala do Atlântico.
A conservação da biodiversidade e dos ecossistemas marinhos tem sido também uma priori-
dade de primeira linha, sendo a classificação de áreas marinhas protegidas objeto de compromissos
internacionais de Portugal, designadamente no quadro da UE e da Convenção das Nações Unidas
sobre a Diversidade Biológica. Em 2020, existiam em Portugal 93 áreas marinhas protegidas,
algumas com sobreposição de diferentes tipos de classificação, cobrindo cerca de 7 % das águas
sob jurisdição nacional (304 195 km2).
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 30
Este ponto de situação reflete, em grande parte, os efeitos das anteriores estratégias nacionais
para o mar e marca o ponto de partida da ENM 2021-2030, constituindo uma referência para a
definição da visão, objetivos estratégicos e metas que se apresentam e desenvolvem nos capítulos
seguintes.
3 — Visão
O mar é uma das marcas identitárias de Portugal mais perenes e inspiradoras. Um oceano
saudável é condição primordial para que a sociedade portuguesa possa colher todos os benefícios
nele e dele gerados, incluindo os de uma economia azul sustentável, circular e inclusiva. Numa
década marcada pelo imperativo de ameaças globais, como as alterações climáticas, a perda de
biodiversidade e integridade dos ecossistemas, as novas formas de poluição e a acidificação do
oceano, Portugal é chamado a ter um papel ativo na procura de soluções globais. Para exercer
este papel, deve liderar pelo exemplo.
O mar apresenta um enorme potencial para promover avanços no conhecimento científico.
A investigação científica permite-nos identificar formas de proteger espécies e ecossistemas vul-
neráveis, de salvaguardar o património cultural e otimizar atividades económicas, funcionando
como motor da inovação, que é fundamental para o desenvolvimento económico e a geração de
emprego. A dimensão da segurança é determinante para responder a ameaças, prevenindo e
agindo em situações que coloquem em risco o ambiente marinho, as atividades económicas e a
vida humana no mar.
Assim, a visão desta estratégia assenta em promover um oceano saudável para potenciar o
desenvolvimento azul sustentável, o bem-estar dos portugueses e afirmar Portugal como líder na
governação do oceano, apoiada no conhecimento científico.
4 — Objetivos estratégicos para a década
Portugal e o mundo enfrentam hoje e nos próximos 10 anos grandes desafios globais.
As alterações climáticas, a sobre-exploração dos recursos naturais do planeta e o declínio da
sua biodiversidade, a fome e a sede, a saúde humana e dos ecossistemas e a perda de bens e
saberes ligados ao património cultural são sombras que teremos de reverter durante a próxima
década. Para delinear as melhores medidas no combate a todos estes desafios, esta estratégia
está organizada em torno de 10 grandes objetivos estratégicos (OE) para a década. Estes objetivos
foram definidos partindo do ponto de situação descrito no capítulo 2 e através de uma análise de
forças, fraquezas, oportunidades e ameaças (análise SWOT — resumida na tabela 1), tendo-se
assegurado o seu alinhamento com os objetivos da Agenda 2030 das Nações Unidas e também
com os do Pacto Ecológico Europeu. Os objetivos estratégicos aqui selecionados são desígnios
nacionais onde a economia azul pode fazer diferença ou onde a nossa relação com o mar precisa
de ser desenvolvida e estimulada.
TABELA 1
Resumo da análise SWOT com objetivos estratégicos da ENM 2021-2030
Potencialidades Vulnerabilidades
— Extensão e diversidade do — Vulnerabilidade aos efeitos
mar português. das alterações climáticas.
— Bom estado ambiental. — Fraca capacidade indus-
trial.
— Conhecimento científico — Pouca diversificação na
e tecnológico especializa- economia do mar.
dos.
— Língua portuguesa e diás- — Falta de mão de obra quali-
pora. ficada nalgumas áreas.
— Portos e infraestruturas. — Fraca cultura de empreen-
dedorismo.
— Diversidade de recursos — Dificuldades de acesso a
naturais e energia de fontes financiamento.
renováveis.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 31
Potencialidades Vulnerabilidades
— Capacidade de atrair e fixar — Meios insuficientes para
talento estrangeiro. assegurar a proteção dos
recursos.
— Estratégia Nacional para — Invisibilidade do patrimó-
o Mar. nio cultural arqueológico e
imaterial.
— Património natural e cultu-
ral marítimo.
Oportunidades . . . . . . . . . — Posição geoestratégica na OE2 — Fomentar o emprego OE7 — Estimular o conheci-
UE e Atlântico. e a economia azul circular mento científico, o desen-
e sustentável. volvimento tecnológico e a
inovação azul.
— Financiamento internacio- OE3 — Descarbonizar e pro- OE9 — Incentivar a reindus-
nal disponível. mover as energias renová- trialização e a capacidade
veis e a autonomia energé- produtiva e digitalizar o
tica. oceano.
— Extensão da plataforma
continental.
— Exportação de energia de
fontes renováveis e novos
combustíveis marítimos.
— Exportação dos produtos
da pesca e aquicultura.
— Integração em cadeias
logísticas internacionais.
— Cooperação internacional
e enquadramento em polí-
ticas de âmbito global.
— Aumento do número e
tonelagem dos navios que
arvoram a bandeira portu-
guesa.
— Aumento da capacidade
de movimentação de mer-
cadorias.
Ameaças. . . . . . . . . . . . . . — Alterações climáticas e OE4 — Apostar na garantia da OE1 — Combater as altera-
desastres naturais. sustentabilidade e na segu- ções climáticas e a poluição
rança alimentar. e proteger e restaurar os
ecossistemas.
— Poluição e acidificação do OE6 — Promover a saúde e o OE5 — Facilitar o acesso à
oceano. bem-estar. água potável.
— Pesca ilegal, biopirataria e OE8 — Incrementar a educa-
outras ameaças à biodiver- ção, a formação, a cultura e
sidade. a literacia do oceano.
— Pirataria e outros atos ilíci- OE10 — Garantir a segu-
tos marítimos. rança, soberania, coopera-
ção e governação.
— Redes de imigração ilegal.
— Confrontação geopolítica.
— Recessão económica.
— Pandemias.
— Destruição do património
cultural.
— Ameaças à segurança dos
processos remotos de ges-
tão e troca de informação.
OE1 — Combater as alterações climáticas e a poluição e proteger e restaurar os ecossistemas
Portugal, pela extensão da sua linha de costa e pela sua posição biogeográfica, deve encarar
os desafios das alterações climáticas, da proteção ambiental e da conservação da biodiversidade
como determinantes para a construção do seu futuro como nação.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 32
Tal opção estratégica significa uma aposta na cooperação em prol da aquisição, desenvolvi-
mento e consolidação de conhecimento científico, mas principalmente no desenvolvimento e na
implementação de soluções tecnológicas nos diversos setores da economia que permitam reduzir
os efeitos destas ameaças ambientais, bem como de capacidades acrescidas de monitorização e
de vigilância. As inovações desenvolvidas neste contexto, sempre que adequado, devem ser pro-
tegidas por direitos de propriedade industrial. Ainda que a principal aposta deva ser na prevenção
de impactos nos ecossistemas, é igualmente necessário desenvolver soluções regenerativas que
permitam recuperar ecossistemas marinhos degradados, fixar carbono e reconvertê-lo para a cadeia
alimentar. Importa ainda reforçar as medidas de prevenção e salvaguarda de pessoas e bens aos
riscos costeiros. Igualmente, devemos incentivar soluções tecnológicas de combate à poluição, seja
por plásticos, hidrocarbonetos ou outras substâncias perigosas, incluindo a drenagem de esgotos
urbanos. Para além de soluções tecnológicas reparadoras, é importante reduzir o lixo marinho,
tanto o que é gerado pelas atividades marítimas, como o produzido em terra. Neste contexto, na
próxima década devemos reforçar o conjunto de medidas que têm vindo a ser implementadas para
reduzir os resíduos de embalagens, promovendo embalagens reutilizáveis, aumentar a eficiência
dos sistemas de reciclagem, evitar produtos de uso único e reduzir o desperdício de materiais.
Contudo, em primeiro lugar, é fundamental identificarmos os ecossistemas, habitats e espécies
marinhas que estão mais ameaçados e desenvolvermos investigação aplicada de suporte à prote-
ção dos mesmos e à recuperação dos ecossistemas degradados, as quais passarão também pela
procura de melhores práticas na utilização do espaço marítimo e classificação de áreas marinhas
e costeiras.
Relativamente à poluição atmosférica causada por transportes marítimos, Portugal deve
estudar a inclusão da sua ZEE junto à costa continental e insular, numa nova área de controlo de
emissões de enxofre e azoto no Atlântico Nordeste, ligando as áreas já existentes no mar Báltico,
mar do Norte e Canal da Mancha ao Mediterrâneo.
Estes desafios assumem atualmente a máxima urgência atendendo ao risco de degradação
dos ecossistemas e de colapso de espécies, agravado pelo aumento da pressão antrópica (cres-
cimento populacional e aumento de consumos) e pelas alterações climáticas cujos efeitos se têm
vindo a acentuar de forma evidente nos últimos anos.
Considerando que o mar não tem fronteiras, que parte dos seus recursos biológicos não são
sedentários e que os desafios em causa se colocam à escala global, Portugal deve integrar o
grupo de países líderes no combate às alterações climáticas, na proteção e restauro ambientais e
na conservação da biodiversidade marinha, procurando mobilizar a comunidade internacional na
procura de soluções globais.
OE2 — Fomentar o emprego e a economia azul circular e sustentável
A economia azul é uma porção relevante da economia global, pois inclui todos os setores que
têm uma ligação direta ou indireta com o oceano como fonte, meio ou objetivo de negócio e do seu
desenvolvimento. No Relatório da Economia Azul da UE de 2020, relativo a dados de 2018, verifica-
-se que o volume de negócios (turnover) gerado por estas atividades atingiu os 2040 mil milhões
de euros, sendo que os setores emergentes, como a biotecnologia azul, as energias renováveis
oceânicas, a aquicultura de algas ou as tecnologias digitais, contribuíram com cerca de 1290 mil
milhões para este valor. O valor acrescentado bruto dos setores estabelecidos atingiu os 218 mil
milhões de euros em 2018, com um volume total de negócios a rondarem os 750 mil milhões de
euros, contribuindo ainda para cerca de 2,2 % do total de empregos na UE com 5 milhões de
empregados.
De acordo com as projeções da OCDE para 2030, a economia azul deverá ultrapassar o
crescimento da economia global como um todo, quer em termos de valor acrescentado bruto, quer
em termos de emprego. É por isso que o seu desenvolvimento é um dos grandes objetivos desta
década para Portugal, com especial enfoque nos setores emergentes acima referidos. No entanto,
este objetivo está dependente do objetivo estratégico 1. O desenvolvimento da economia azul deve
assentar no princípio base de ecossistemas saudáveis e proteção das comunidades costeiras,
utilizando princípios de circularidade, inclusividade, equidade e sustentabilidade, pois só em har-
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 33
monia ambiental, social, cultural e económica poderemos prosperar verdadeiramente. Assim, em
conformidade com o Plano de Ação para a Economia Circular, importa desenvolver uma economia
circular e de base biológica onde os princípios de redução, substituição, reutilização, reciclagem e
reaproveitamento de recursos primários são o novo normal, e o consumidor pode e deve desem-
penhar um papel chave como indutor de práticas de comércio justo e responsável. Deve também
ser inclusiva, capaz de criar emprego qualificado para fazer face às necessidades do mercado, de
manter emprego no setor primário, nomeadamente na pesca, de promover o desenvolvimento das
rotas marítimas e estruturas portuárias que visem uma mobilidade com menor impacto ambiental,
e assegurar a sustentabilidade cultural e social das comunidades litorais. Neste âmbito, deverão
desenvolver-se esforços para o reforço da atratividade da profissão de pescador, que estimule
a entrada de mão de obra mais jovem neste setor. Esta abordagem não pode ser dissociada da
necessidade de melhorar as condições de trabalho e de segurança a bordo e nos portos de pesca.
Deve também considerar-se o papel que as comunidades locais costeiras podem ter no desen-
volvimento de uma economia circular e de base biológica, através do aproveitamento de recursos
marinhos. Para além disso, é fundamental garantir um maior equilíbrio ao longo da cadeia de valor,
procurando uma valorização dos recursos endógenos das comunidades costeiras, com base numa
integração sustentável do ecossistema industrial, que promova a criação de valor e o desenvolvi-
mento das economias locais tradicionalmente mais dependentes do mar, direta ou indiretamente,
pela associação a outras atividades como o turismo ou a transformação do pescado.
Paralelamente, continuarão a ser desenvolvidos esforços no sentido de diversificar as atividades
nos portos, facilitar o acesso ao mar, atrair novas empresas para estimular as economias locais e
promover a transferência de conhecimento e tecnologia para atividades inovadoras e tradicionais.
Por último, no âmbito de uma gestão integrada, deverá ser devidamente articulada a gestão das
dragagens portuárias no âmbito das dragagens de manutenção com ações de proteção costeira,
promovendo assim o aumento da resiliência do território.
OE3 — Descarbonizar a economia e promover as energias renováveis e autonomia energética
Portugal assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2050 no âmbito do
Acordo de Paris. O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC 2050) estabelece como metas
de descarbonização uma redução de emissões superior a 85 % até 2050, em relação às emissões
de 2005, e uma capacidade de sequestro de carbono de 13 milhões de toneladas. É crucial que
na próxima década se concentre um maior esforço na redução de emissões de gases com efeito
de estufa. Nesse sentido, o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030), que concretiza o
RNC 2050 para a década 2021-2030, define as metas de redução de emissões, de incorporação
de energias renováveis e de eficiência energética.
O oceano pode contribuir para a descarbonização em três áreas, intimamente relacionadas
com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, nomeadamente os
ODS 7 — Garantir o acesso a fontes de energia fiáveis, sustentáveis e modernas para todos, ODS
9 — Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e
fomentar a inovação e ODS 14 — Conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e os
recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. No ODS 14 tem especial relevo o carbono
azul que em Portugal se encontra em ecossistemas como os sapais e as pradarias marinhas, nas
zonas costeiras e oceânicas e nos seus recursos vivos e não vivos, e cuja capacidade de captação
pode ainda ser alavancada com medidas especiais de incentivo à reflorestação marinha, aquicultura
de algas ou aquicultura multitrófica integrada. Por seu turno, o ODS 9 implica a redução de emissões
de dióxido de carbono, justificando-se também que todos os setores de atividade da economia do
mar apostem na eficiência energética, incorporação de tecnologias inovadoras, novos materiais
e processos com menor pegada carbónica, salvaguardando os direitos de propriedade industrial
associados. Em especial, o transporte marítimo de mercadorias e pessoas, emissor de gases com
efeito de estufa terá de assegurar a transição energética (green shipping) no médio e longo prazo,
com a adoção de combustíveis alternativos de baixo e zero carbono (GNL, hidrogénio e combus-
tíveis sintéticos) e da eletrificação, nomeadamente com a utilização de energia solar. Os setores
da náutica de recreio, turismo, pesca e aquicultura nacionais deverão, igualmente, associar-se a
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 34
este esforço na transição energética e no desenvolvimento de novos processos que garantam o
cumprimento da neutralidade carbónica.
No quadro do ODS 7 — Energias renováveis e acessíveis, a aposta em energias renováveis
oceânicas permite a diversificação de fontes de energia endógenas e renováveis, reduzindo a depen-
dência dos combustíveis fósseis e consequentemente as emissões de gases com efeito de estufa.
No caso de Portugal, acresce a mais-valia estratégica de se aumentar a autonomia energética do
País, e das suas regiões autónomas que enfrentam desafios próprios neste domínio. Contudo, é
indispensável assegurar a avaliação dos impactos causados por estas atividades, e infraestruturas
associadas, na fauna e flora marinhas, bem como no património cultural e nas atividades económi-
cas associadas ao mar. O cumprimento do potencial que o oceano possui para a descarbonização
implica que o quadro regulatório dos instrumentos do Ordenamento do Espaço Marítimo (Plano
de Situação do Espaço Marítimo e os Planos de Afetação) seja adequadamente aplicado e que as
políticas fiscais e de investimento estabeleçam os incentivos necessários, positivos e negativos,
para este novo paradigma de descarbonização na economia do mar.
OE4 — Apostar na garantia da sustentabilidade e na segurança alimentar
Portugal é um dos países com maior consumo de pescado per capita e importa cerca de 75 %
dos produtos de origem marinha que consome. A capacidade de nos alimentarmos de forma sus-
tentável e sustentada, em alinhamento com a iniciativa europeia «Do Prado ao Prato», depende de
uma exploração sustentável dos recursos marinhos vivos, do crescimento da aquicultura nacional,
incluindo a produção multitrófica e offshore, e de outras formas de produção proteica alternati-
vas como a biotecnologia e a diferenciação celular em laboratório de novas linhagens celulares
marinhas, a impressão 3D e a procura de novas fontes proteicas marinhas de fácil produção. Na
transformação do pescado, devem fomentar-se os conceitos de desperdício zero e da valorização
integral dos resíduos, coprodutos e subprodutos, assegurando que o processamento não impede
a rastreabilidade e, consequentemente, a segurança alimentar.
Importa promover o uso de ferramentas moleculares para combater a substituição fraudulenta
de espécies marinhas de elevado valor por outras de menor valor, bem como desenvolver tecnologia
que permita a monitorização de poluentes emergentes e micro e nanoplásticos em produtos de
origem marinha destinados ao consumo humano. O desenvolvimento da fiscalização em terra e no
mar faz parte da garantia de sustentabilidade e segurança na fileira do pescado. A sustentabilidade
da alimentação deve incluir não apenas a produção nacional de pescado, na pesca e na aquicultura,
mas também o consumo de pescado importado, identificando a sua origem, ponderando o impacto
ambiental da forma como o peixe importado é produzido e procedendo à avaliação de novos riscos
decorrentes das alterações climáticas (como novos organismos tóxicos e novas toxinas) que podem
determinar a necessidade de alterar legislação vigente e instalar novas competências para a sua
deteção, impondo novos requisitos no quadro da segurança alimentar.
Até 2030, devemos reconverter a pesca nacional num dos setores mais sustentáveis e de baixo
impacto a nível mundial, estimulando a afetação de subsídios à promoção desta transformação.
O desafio deverá passar também por manter a sustentabilidade com base no conhecimento cien-
tífico, inovação tecnológica, diversificação dos recursos explorados e compromisso com nichos de
mercado de qualidade, aumentando a lógica empresarial na investigação ligada às pescas.
É bem conhecida a importância do pescado (incluindo todos os produtos da pesca, apa-
nha e aquicultura) na dieta nacional, no sentido da quantidade, diversidade e qualidade proteica
que fornece, e nas dimensões gastronómica, cultural e histórica. Porém, os elevados valores de
importação de pescado que desequilibram a nossa balança comercial dos produtos da pesca
justificam que a autonomia e a segurança no abastecimento da cadeia alimentar (identificação da
origem, qualidade e sustentabilidade) sejam consideradas vetores estratégicos da economia do
mar. O Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) tem diretrizes no
sentido de se reforçar o consumo de espécies de proximidade e promover a literacia da população
nesta área, nomeadamente da população em idade escolar. Também a Agenda da Inovação para
a Agricultura 2030 inclui como meta «Mais Saúde — aumentar em 20 % o nível de adesão à Dieta
Mediterrânica», onde o consumo de pescado assume um papel central.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 35
OE5 — Facilitar o acesso a água potável
O consumo crescente de água pelos diferentes usos, como o abastecimento público, a pro-
dução agrícola e pecuária, a indústria e os usos recreativos, entre outros, tem vindo a impor uma
pressão crescente sobre os recursos hídricos globais. Em determinadas zonas do globo, como a
região onde Portugal se insere, esta pressão tende a agravar-se com os cenários de alterações
climáticas conhecidos, que incluem o aumento de frequência de situações de seca prolongada,
juntamente com riscos acrescidos de intrusão salina em reservas de água doce nas zonas costeiras.
A frequência e a intensidade deste tipo de fenómenos meteorológicos, e os seus danos ambientais
e económicos, aumentaram drasticamente nos últimos anos.
Assim, afigura-se determinante ter acesso a fontes alternativas de água e aumentar a eficiência
na sua utilização. Uma destas fontes são os sistemas de dessalinização, tendencialmente neutros
em termos de emissões de carbono, quando em associação com sistemas de produção de ener-
gias renováveis oceânicas, e cujos impactos ambientais devem ser avaliados e minimizados.
É, assim, fundamental que a ENM 2021-2030 enquadre a dessalinização no quadro da gestão
dos recursos hídricos, complementando o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água e o
regime jurídico de produção de água para reutilização, obtida a partir do tratamento de águas
residuais. Conforme expresso no Plano Nacional da Água, os programas de medidas na área da
gestão dos recursos hídricos são de natureza multissetorial, podendo haver a necessidade de
mobilizar os setores económico e do mar, sem esquecer sistemas não convencionais de recolha
e transporte de água.
Este desígnio faz especial sentido considerando que Portugal já dispõe de saber relevante em
engenharia sanitária e tem setores diferenciadores como a eletromecânica, a eletrónica e o têxtil.
A estes fatores somam-se centros de excelência no apoio à inovação industrial e capacidade para
uma abordagem multissetorial para a dessalinização, permitindo contribuir para os objetivos da
Agenda 2030 das Nações Unidas, designadamente no que respeita ao acesso à água, a energia
limpa e acessível, ao desenvolvimento da indústria e inovação num quadro de desenvolvimento
sustentável.
OE6 — Promover a saúde e o bem-estar
A saúde do oceano está intimamente ligada à saúde e bem-estar humanos através de várias
componentes. Começando pelos serviços dos ecossistemas marinhos, que nos dão oxigénio
e sequestram o dióxido de carbono, esta é talvez uma das mais relevantes e mais descuradas
ligações do oceano à nossa existência. No caso da alimentação, o consumo regular de pescado
e outros produtos do mar faz parte da base de uma dieta saudável, e tem um efeito conhecido na
saúde humana, que é assinalado na Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Sau-
dável (EIPAS).
O oceano é, também, uma fonte com enorme potencial de substâncias bioativas que podem
ser produzidas por biotecnologia azul a partir de uma grande diversidade de organismos marinhos
(bactérias, algas, esponjas, corais, moluscos e outros invertebrados). O desenvolvimento desta
atividade está intensivamente dependente do conhecimento pelo que é necessário investir em
tecnologia e investigação aplicada a esta área. Este setor é especialmente promissor, prevendo-
-se o desenvolvimento de novos produtos farmacêuticos e nutracêuticos (por exemplo, para
combater doenças oncológicas, infeções por vírus ou estafilococos resistentes a antibióticos,
dor, asma e inflamação), importantes para a qualidade de vida e saúde humanas, e outros com
aplicações na estética (cosmecêuticos) e no bem-estar geral (talassoterapia e algoterapia, entre
outros).
Por último, os ecossistemas marinhos e costeiros oferecem oportunidades para diver-
sas atividades recreativas. A experiência destas vivências tem benefícios vários, incluindo a
satisfação estética, melhorias na saúde física e mental e um sentido acrescido de bem-estar.
Estes serviços naturais e culturais são vistos como instrumentos de qualificação ambiental e da
vida dos cidadãos, contribuindo também para a sustentabilidade e resiliência das comunidades
e dos territórios.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 36
OE7 — Estimular o conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico e inovação azul
O conhecimento científico deve estar ao serviço dos cidadãos, desde logo como instrumento
de apoio à tomada de decisão política. As universidades, os centros de investigação e os labora-
tórios do Estado são, por natureza, os espaços de excelência para a investigação e promoção do
conhecimento científico, e a sua ligação à sociedade como um todo deve ser ainda mais estimu-
lada. A produção de conhecimento para suporte às políticas públicas deve ser uma prioridade e
carece crescentemente de abordagens multidisciplinares e colaborativas. O mesmo se aplica ao
desenvolvimento e transferência de conhecimento científico para as empresas, sendo de referir
neste contexto o papel dos Laboratórios Colaborativos (CoLabs) na implementação de agendas
de I&DI orientadas para a criação de valor económico e emprego qualificado.
A participação dos cidadãos no desenvolvimento das ciências do oceano é importante, devendo
ser dada atenção particular ao conhecimento ecológico e cultural local como fonte de informação
e de comprometimento com a observação continuada do sistema natural, do património cultural e
da interação do homem com a natureza. Uma outra fonte de informação a considerar é o uso de
navios de oportunidade — o transporte marítimo, embarcações de pesca e algumas operações
marítimo-turísticas podem marcar a diferença no que respeita à quantidade e abrangência geo-
gráfica de dados obtidos. É, assim, necessário estudar mecanismos que estimulem a obtenção e
disponibilização de dados recolhidos por estas vias.
A observação continuada baseia-se na obtenção de dados do oceano, in situ e ex situ, desde
os tradicionais dados físico-químicos aos, cada vez mais necessários, dados biogeoquímicos essen-
ciais para compreender os processos dinâmicos do meio marinho. É fundamental apoiar sistemas
de observação do oceano de forma sustentada e promover a sua digitalização, interoperabilidade,
arquivo e acessibilidade, com aplicações digitais seguras e de uso fácil, assim como as tecnologias
relacionadas com a inteligência artificial.
As ciências do oceano produzem também a matéria-prima da inovação e, como tal, importa
reter e atrair talento e investimento para Portugal nas diversas áreas da economia azul, através
da criação de clusters multidisciplinares, do desenvolvimento de uma cultura de propriedade inte-
lectual, e do acesso a infraestruturas de qualidade mundial. A capacitação de cientistas, técnicos,
engenheiros e gestores pode ser promovida através da criação de ambientes dinâmicos e com
forte potencial de interação e de inovação. Neste âmbito, deve assegurar-se a complementaridade
de perfis, a participação do setor económico, da academia e dos atores públicos, de uma forma
simbiótica, e a concretização de iniciativas capazes de assegurar a formação de círculos virtuosos
de desenvolvimento, experimentação e operação. De igual modo, a qualidade da ciência portu-
guesa deve ser potenciada no contexto internacional através da colaboração ativa com organismos
internacionais.
Portugal é um país atraente para a realização de testes e ensaios de tecnologias oceânicas,
aproveitando também as condições específicas dos arquipélagos dos Açores e da Madeira, com
vista ao desenvolvimento de capacidades infraestruturais de dimensão atlântica, em articulação
com a rede nacional de infraestruturas científicas e com as prioridades do setor económico, e este
potencial deve ser aproveitado plenamente. Importa mencionar que a Fundação para a Ciência e a
Tecnologia mantém o Roteiro Nacional de Infraestruturas de Investigação de Interesse Estratégico,
que integra várias infraestruturas ligadas ao oceano e é periodicamente atualizado.
O desenvolvimento de abordagens inovadoras para a monitorização oceânica, incluindo os
ambientes extremos, os ecossistemas críticos, o património cultural náutico e subaquático e os
processos físicos, químicos, geológicos e biológicos, deve alicerçar-se no desenvolvimento de
novos sensores, plataformas e redes de observação (autónoma e não autónoma), beneficiando de
sinergias com os sistemas offshore de produção de energia, de robótica e de aquicultura. No con-
texto da Estratégia para o Atlântico, o espaço sob jurisdição nacional exige uma atenção inadiável
relativamente ao solo e subsolo da plataforma continental e dimensão epi e mesopelágica da coluna
de água, e suas interações. O conhecimento sobre os recursos geológicos, biológicos, genéticos e
patrimoniais da nossa plataforma continental e da massa de água profunda sobrejacente é ainda
demasiado residual, pelo que devemos reforçar o esforço de investigação.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 37
Por outro lado, é também premente integrar o conhecimento científico conduzido por entidades
terceiras no espaço marítimo nacional, através da inclusão de cientistas portugueses a bordo de
cruzeiros científicos estrangeiros, e de outros meios que assegurem acesso aos seus resultados
de investigação.
Por último, sublinha-se a relevância de aplicarmos estratégias de uso do oceano que promovam
a proteção e recuperação de ecossistemas marinhos de elevado valor ecológico e cultural, a sus-
tentabilidade do sistema no seu todo e o aumento da sua resiliência às alterações antropogénicas.
OE8 — Incrementar a educação, a formação, a cultura e a literacia do oceano
A próxima década deverá contribuir para Portugal aumentar e aperfeiçoar a oferta educativa e
formativa para todas as áreas ligadas ao mar. Deve estimular-se a mobilidade entre profissões do
mar, a inovação e empreendedorismo e as novas competências profissionais, no espírito da Agenda
de Competências para a Europa, da Comissão Europeia, com o objetivo de atrair mais jovens e
mulheres para profissões ligadas ao oceano. Devemos, ainda, intensificar o investimento na edu-
cação e formação de quadros superiores especializados na área do mar e na formação profissional
especializada para habilitar profissionais da economia do mar internacionalmente competitivos.
A I&D é uma base fundamental para desenvolver e patentear novas tecnologias e capacitar
o desenvolvimento das várias atividades e, consequentemente, do País, através da utilização
sustentável deste imenso recurso que é o mar. A conceção e desenho de qualificações deverão
contemplar os correspondentes referenciais de competências e referenciais de formação e os
instrumentos de avaliação de competências em RVCC Profissional (Reconhecimento, Validação e
Certificação de Competências Profissionais), interligando escolas, centros de formação profissional,
centros Qualifica, universidades e institutos, que preparam a força de trabalho, e empresas que
desenvolvem a economia e a sociedade que dela beneficia. A atualização e o reforço das ofertas
de qualificação nesta área, quer para jovens quer para adultos, passa pela atualização do Catálogo
Nacional de Qualificações (CNQ). Neste sentido, foi criado o Conselho Setorial para a Qualificação
da Economia do Mar, onde estão representados os principais atores interessados.
Nos ODS da Agenda 2030 das Nações Unidas, a cultura é sinónimo de tolerância, responsa-
bilidade e diversidade, conceitos cruciais a um desenvolvimento sustentável. Assim, é fundamental
implementar políticas que promovam a cultura, afirmando a nossa identidade. É imensurável o
alcance que a produção, criação e divulgação do conhecimento e cultura podem trazer ao bem-
-estar das comunidades e a um país, para além da projeção internacional, do retorno económico
e da criação de emprego. Devem desenvolver-se estratégias de valorização do património cultural
que contribuam para as futuras políticas de educação, ciência, ordenamento do território, ambiente
e turismo. Está sinalizada, também, a necessidade de se estimular a formação, a inovação e a
cooperação internacional nesta área, bem como de se assumir o património cultural marítimo como
um vetor de promoção internacional do País.
Nesta década, reforça-se a aposta na Literacia do Oceano, com todos e não apenas para todos,
por forma a transformar o modo de pensar e agir e mudar de paradigma. Mais do que comunicar à
sociedade aspetos relevantes do oceano, será preciso incluir a própria sociedade nesta transfor-
mação, em particular as crianças e jovens, futuros cidadãos ativos em Portugal e na comunidade
lusófona, nomeadamente através das escolas portuguesas no estrangeiro.
É necessário criar uma rede de espaços que revelem a importância do mar na nossa identidade,
incentivar todos os cidadãos e setores da sociedade a assumirem atitudes informadas e responsáveis
sobre o oceano, a saberem comunicar, agir e decidir, mas de forma inclusiva, não esquecendo a
multiplicidade de olhares do nosso povo. Em Portugal existem muitas iniciativas na área da Literacia
do Oceano, que são promovidas por um conjunto alargado de organizações e dirigidas a diferentes
públicos-alvo. Devemos desenvolver mais mecanismos de partilha de informação, experiências e
melhores práticas, para se divulgarem estas ações e obterem o máximo de sinergias.
Para uma cultura mais próxima do oceano, importa aliar o conhecimento científico aos valores
e tradições, que fazem parte da vida individual e coletiva dos portugueses, para que reconheçam o
papel do oceano nas suas vidas e a sua influência sobre o oceano. Devemos, igualmente, fomentar
mais participação pública e envolvimento das partes interessadas na definição das políticas públicas.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 38
Para alcançar esta missão é imprescindível incluir educadores, investigadores, comunicadores,
profissionais dos setores do mar, empreendedores, juristas, políticos, artistas e jovens, envolvendo
também municípios, associações e empresas com atividades ligadas ao mar. Apenas assim será
possível que a sociedade se aproprie de uma renovada cultura marítima.
OE9 — Incentivar a reindustrialização e a capacidade produtiva e digitalizar o oceano
Portugal, e a Europa em geral, têm ficado desprovidos de capacidade produtiva de base
industrial, com deslocalização de parte da produção para outras geografias. A reindustrialização
é uma aposta estratégica que se afigura necessária e a economia do mar deverá ter um papel
de relevo nesse processo, adotando novos princípios e modelos de negócio, apelando a setores
tradicionais e emergentes, captando mais investimento e evidenciando-se cada vez mais como um
ativo estratégico para a internacionalização.
As estratégias de especialização inteligente nacional e regionais evidenciam a economia do mar
como uma área de elevada exigência e relevância. Devemos continuar a promover a clusterização
nesta área e o ordenamento do território, designadamente em torno dos portos comerciais e de
pesca, por forma de potenciar a I&D, o patenteamento, novos investimentos e o acesso facilitado ao
mar. Portugal é reconhecido como tendo uma forte capacidade interna de engenharia, em diversas
áreas com aplicação nos setores industriais da economia do mar. Tem, em especial, um histórico
e capacidade reconhecidos na engenharia naval e nas indústrias de transformação de pescado.
Por outro lado, os setores emergentes da economia azul como a biotecnologia azul, a engenharia
oceânica (com fortes desenvolvimentos na robótica submarina, nos sensores, nas comunicações e
nas tecnologias de informação com recurso à inteligência artificial), as tecnologias espaciais (como
o uso de dados da observação da Terra, navegação e comunicações por satélite), as novas formas
de aquicultura, a cadeia de valor das energias renováveis e ainda os setores ligados aos recursos
marinhos não vivos poderão representar grandes oportunidades para uma nova era industrial e
produtiva em Portugal. A valorização destas competências e propostas de valor deverá ser orientada
aos mercados externos, em linha com os objetivos do Programa Internacionalizar 2030.
Na UE, Portugal está entre os Estados-Membros em que a economia do mar mais importância
tem a nível da economia nacional. Os resultados mostram que a economia do mar tem sido resi-
liente, mesmo em períodos adversos, crescendo a um ritmo bem mais acelerado que a restante
economia nacional, e que o valor gerado pelas empresas tem aumentado de forma consistente,
tal como o valor das exportações dos produtos da economia do mar. A reindustrialização do País,
baseada na economia do mar, deverá refundar a maritimidade de Portugal numa lógica moderna
em que é assumida a necessidade de a mesma ser inclusiva, integradora de I&D, de se basear em
capital humano de excelência, de ser seguidora de critérios ambientais, assente numa economia
circular e eficiente no uso de recursos.
Por outro lado, a reindustrialização, nesta área, deverá também estar ao serviço de preocupa-
ções estratégicas cuja importância ficou patente com as disrupções globais em alguns segmentos
críticos da economia do mar provocadas pela pandemia da doença COVID-19, nomeadamente ao
nível do tráfego marítimo internacional.
A retenção ou conquista de novas competências e de conhecimento bem como de capacidade
produtiva em torno de recursos fundamentais, nomeadamente a produção de contentores ou de
recursos de apoio ao manuseamento de cargas marítimas, acrescida de programas de inovação
tecnológica direcionados para esta área e alinhados com as preocupações de sustentabilidade
ambiental, constituem uma prioridade relevante para completar a integração vertical da indústria
do mar em Portugal.
Na era digital, a desmaterialização de procedimentos no que respeita às atividades no mar
contribui para a sua promoção, uma vez que simplifica e acelera os processos administrativos asso-
ciados. São disso bons exemplos a Janela Única Logística e o Balcão Eletrónico do Mar, cujo leque de
cobertura importa aumentar. A digitalização das atividades associadas ao mar contribuirá para manter
e atrair os cidadãos e o tecido produtivo para as atividades tradicionais e emergentes no meio mari-
nho, atentas as boas práticas e orientações nacionais no campo da cibersegurança. A digitalização
e disponibilização livre de dados do fundo oceânico e coluna de água no portal nacional de dados
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 39
abertos da Administração Pública permitirão a inspeção pela sociedade nos interesses da saúde e
bem-estar, da produtividade e inovação económicas e da literacia do oceano. Por outro lado, o uso
de ferramentas de intelligence competitiva servirão também como novos instrumentos de análise
de mercado, novos produtos e serviços em prol da economia do mar.
OE10 — Garantir a segurança, soberania, cooperação e governação
A relação singular entre Portugal e o Atlântico é um fator crucial para que o País valorize, con-
solide e reforce relações de cooperação com outros Estados, garanta a soberania em toda a sua
área marítima e participe ativamente em processos conjuntos que visem garantir a segurança nas
áreas de interesse nacional e internacional. Considerando as suas dimensões atlântica e europeia,
Portugal deve promover a implementação de uma Política Marítima Integrada em todas as suas
vertentes. No mesmo contexto, Portugal deve afirmar-se como uma nação marítima reconhecida
a nível global, colhendo os benefícios da sua credibilidade e capacidade de agregar vontades a
uma escala pluricontinental.
A ENM 2021-2030 constitui um instrumento para afirmação da soberania do País, que vai exigir
uma aposta na inovação e na ciência, tendo em vista o aumento da capacidade de monitorização
móvel remota do oceano e áreas costeiras, e o desenvolvimento de meios tecnológicos inteligentes
e de plataformas de monitorização. Deste modo, dá-se corpo à noção de que o conhecimento é a
primeira forma de exercer a soberania no mar.
As parcerias securitárias multissetoriais e transnacionais, assentes na cooperação técnica e
operacional na vertente marítima e portuária, reforçam a construção da segurança e da proteção
e são mecanismos de ligação que favorecem as sinergias e as respostas conjuntas no quadro da
prevenção e da supressão de atos ilícitos, na gestão de crises humanitárias, nas operações de
busca de salvamento, na troca de informação, na simplificação de procedimentos e na monitorização
e vigilância do mar. Nesse sentido, devemos promover a partilha de informação no conhecimento
situacional marítimo, com o envolvimento crescente dos diversos agentes interessados, como as
administrações nacionais, regionais e locais, as empresas e outras entidades e operadores com
atividade no mar (pescas, ciência, ambiente, portos, transportes, náutica de recreio, turismo, ener-
gia, etc.) e as autoridades competentes.
A fronteira externa da UE corresponde a 44 752 km, dos quais 32 719 km dizem respeito
à fronteira marítima. Portugal, com 21 postos de fronteira marítima, é um dos países com maior
expressão e protagonismo na interseção de rotas intercontinentais, contribuindo a valorização
do mar para a sua afirmação geopolítica e geoestratégica no Atlântico e nos espaços marítimos
correlacionados.
A ENM 2021-2030 deve também ser um instrumento orientador da diplomacia do mar, esti-
mulando o reforço das relações com outras nações marítimas. Considerando que os países da
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) têm igualmente uma relação especial com
o oceano, esta estratégia deve contribuir para o aprofundamento da cooperação nos assuntos do
mar, concretizando a Estratégia da CPLP para os oceanos. Deve ainda contribuir para a continua-
ção da cooperação internacional na bacia atlântica, designadamente sob o chapéu do AIR Centre
e da Declaração de Belém, que promove a cooperação em investigação e inovação no oceano
Atlântico, assinada em Lisboa em 2017 entre a UE, o Brasil e a África do Sul, e no âmbito da qual
Portugal tem tido um papel muito ativo.
A ENM 2021-2030 reflete ainda, no quadro das obrigações internacionais de Portugal, o pilar
da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) que veio instituir o atual regime
de governação do oceano. A CNUDM constitui um instrumento fundamental da ordem jurídica
internacional, cujo desenvolvimento Portugal tem acompanhado desde o início. Este envolvimento
concretiza-se em variados processos no quadro das Nações Unidas, como o Acordo de Implemen-
tação da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar sobre a Conservação e Utilização
Sustentável da Biodiversidade Marinha em Áreas além da Jurisdição Nacional (BBNJ), no qual
Portugal continua a afirmar a sua posição como ator destacado nos fóruns internacionais.
É possível também que, até 2030, Portugal conclua junto das Nações Unidas o processo da
extensão da Plataforma Continental, essencial na garantia do Objetivo Estratégico 10. Esta nossa
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 40
acrescida responsabilidade no Atlântico justifica um acompanhamento mais atento de diversos
fóruns internacionais como, por exemplo, os trabalhos da Autoridade Internacional dos Fundos
Marinhos, quer ao nível das decisões de celebração de contratos, quer ao nível da regulamentação
de atividades.
A ENM 2021-2030 reforça ainda a dimensão de Portugal como estado de bandeira, estado
portuário e estado costeiro no âmbito da Organização Marítima Internacional (OMI), e a afirmação
do País na luta contra a poluição no oceano no quadro do Acordo de Lisboa e de outros acordos
regionais similares, na ligação com a Agência Europeia de Segurança Marítima, sedeada em Lis-
boa, e na proteção do Património Cultural Subaquático no âmbito da Convenção da UNESCO de
2001.
A ENM 2021-2030 reforça também o esforço do País nas iniciativas da UE no combate a ativi-
dades criminosas como a pirataria, o auxílio à imigração ilegal ou ameaças de natureza assimétrica.
Decorrente da adesão de Portugal ao Centro de Excelência Europeu para o Combate às Ameaças
Híbridas (Hybrid CoE), prevê-se um contributo nacional acrescido na promoção da resiliência
face a ameaças híbridas, nomeadamente as relacionadas com a segurança marítima. As redes
criminosas que exploram movimentos migratórios por via marítima devem também ser objeto de
atenção redobrada, assegurando-se a devida articulação dos serviços competentes das áreas da
defesa nacional, da administração interna e das migrações. Tendo presente a necessidade de se
olhar para as migrações numa perspetiva humanista, importa acompanhar o Plano Nacional de
Implementação do Pacto Global das Migrações, na resposta nacional em matéria de migrações,
concertada com os parceiros internacionais fundamentais.
Acresce a necessidade de garantir uma capacidade própria capaz de garantir a soberania
do Estado sobre os recursos existentes na área de interesse nacional, em complemento à coope-
ração europeia e internacional. A cooperação interdepartamental é estruturante nos assuntos do
mar, na eficiência e eficácia de uma política marítima a nível nacional e na sua coordenação com
a cooperação internacional.
5 — Áreas de intervenção prioritárias
Colocados que estão os principais objetivos estratégicos da década, é agora necessário
identificar áreas de intervenção prioritárias para os concretizar. As áreas de intervenção prioritárias
representam setores, ou conjuntos de setores, e áreas ligadas ao mar, no âmbito das quais se pre-
tende desenvolver medidas, estímulos e apoios para que as mesmas se fortaleçam e contribuam
para atingirmos os objetivos estratégicos.
AI1 — Ciência e inovação
A ciência e inovação têm uma importância primordial. De pouco servem as decisões estratégicas
da governação, se não forem servidas e suportadas por uma ciência de excelência. Assim, o desen-
volvimento da economia azul e a salvaguarda e restauro dos ecossistemas marinhos e costeiros,
bem como do património cultural subaquático, dependem da constituição de uma base sólida de
conhecimento do mar, dos fundos marinhos e da inovação tecnológica daí derivada. O mesmo se
aplica à previsão, prevenção e minimização dos impactos de riscos naturais ou antrópicos. Estas
tarefas obrigam ao empenho e à cooperação das instituições científicas nacionais e à sua ampla
participação nas infraestruturas de investigação europeias e internacionais, promovendo assim a
liderança da investigação realizada em Portugal em áreas chave da investigação oceânica. Este
é também um passo necessário para o desenvolvimento de clusters para o conhecimento do mar,
baseados na cooperação de instituições científicas, empresas e outras entidades públicas e priva-
das, sem limitação às fronteiras nacionais. Podemos destacar, a título de exemplo, o papel que o
AIR Centre, os Laboratórios Colaborativos (CoLabs) e o futuro Observatório do Atlântico poderão
ter no desenvolvimento deste tipo de cooperação científica.
A promoção de uma política de dados abertos é outro aspeto chave nesta área de intervenção
para assegurar a transparência e facilitar o acesso aos dados recolhidos por todos os utilizadores
do oceano, como por exemplo no portal nacional de dados abertos da Administração Pública e no
portal EMODNET (European Marine Observation and Data Network). Esta aposta é, por exemplo,
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 41
uma ferramenta importante para atingirmos objetivos tão diversos como o envolvimento crescente
dos cidadãos na ciência ou a implementação de acordos internacionais como o Protocolo de Nagoia.
Igualmente necessário é o desenvolvimento e manutenção de infraestruturas laboratoriais
ou de campo de nível europeu, em qualidade e quantidade, que suportem posições de liderança
científica em áreas chave. Necessitamos de infraestruturas nacionais no mar (inshore e offshore)
para ensaios e scale-up em ambiente natural, beneficiando de sinergias com instalações já exis-
tentes, em particular as relacionadas com a produção de energia de fonte renovável, as ligações
submarinas e a aquicultura offshore. É, também, crucial para Portugal participar em iniciativas
internacionais na área da oceanografia e do clima, como o programa Argo, por exemplo, e coligir
e processar a informação e dados sobre o oceano, investindo nos equipamentos e infraestruturas
necessários para assegurar a observação e monitorização do mar português.
Por outro lado, é também premente integrar o conhecimento científico conduzido por entidades
terceiras no espaço marítimo nacional, através da inclusão de cientistas portugueses a bordo de
cruzeiros científicos estrangeiros e bem assim tendo acesso aos seus resultados de investigação,
e dele gerando benefício efetivo, em prol do conhecimento científico nacional.
É essencial transformarmos mais conhecimento em riqueza e emprego. Devemos aumentar a
transferência de ciência e tecnologia para a inovação empresarial em setores estratégicos, baseada
nas necessidades reais da economia. Neste sentido, importa fomentarmos projetos de copromo-
ção, projetos mobilizadores e projetos de regime contratual de investimento no sentido de conduzir
a um mais rápido desenvolvimento, e patenteamento, de novos produtos, processos e serviços.
Em paralelo, devemos implementar roteiros e programas nacionais para diversas áreas do mar,
à semelhança do Roteiro Nacional para a Bioeconomia Azul, identificando os desafios principais,
bem como as soluções necessárias, nas áreas da ciência, tecnologia e inovação.
Por último, deverá ser fomentada a cooperação internacional no que respeita às ciências
do oceano, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os objetivos
estabelecidos para a Década das Nações Unidas das Ciências do Oceano para o Desenvolvimento
Sustentável 2021-2030, onde Portugal deve assumir um papel central e impulsionador. Na esfera
atlântica, a cooperação em I&I deverá continuar a ser promovida por Portugal, nomeadamente no
âmbito da Declaração de Belém e do AIR Centre.
AI2 — Educação, formação, cultura e literacia do oceano
Para se desenvolver uma cultura marítima e uma economia azul, circular e sustentável, a
educação e formação são fundamentais. Esta abordagem deve ser inclusiva e transversal a todas
as áreas e a sua implementação deve ter em atenção as realidades sociais e do território. A abor-
dagem deve iniciar-se no primeiro ciclo do ensino básico, a partir dos conhecimentos já previstos
nas Aprendizagens Essenciais sobre esta temática e desenvolver-se ao longo da escolaridade
obrigatória.
A Educação para a Cidadania e Desenvolvimento é também um espaço curricular privilegiado
para o desenvolvimento de aprendizagens transversais e interdisciplinares. De particular impor-
tância, é a prática já instituída da interação do desporto escolar com o desenvolvimento curricular,
nomeadamente através dos Centros de Formação Desportiva do Desporto Escolar de Atividades
Náuticas, implantados a nível nacional, tanto na zona costeira como em planos de água no inte-
rior do País, constituindo uma forte aposta no sentido de promover o contacto dos alunos com as
modalidades náuticas (canoagem, surfing, vela e remo). Para além da vertente desportiva, esta
oferta contribui de forma estruturada para a aproximação de crianças e jovens ao mar, permitindo
trabalhar competências associadas à literacia do oceano, no âmbito dos domínios de autonomia
curricular e desenvolvimento ambiente e sustentabilidade.
O Programa Escola Azul, do Ministério do Mar, tem vindo a criar uma comunidade educativa
mais próxima dos desafios ligados ao oceano. Estabelecida esta comunidade que aproxima as
escolas do mar, importa nesta década consolidar o Programa Escola Azul e fortalecer a cooperação
entre os diferentes setores ligados ao oceano, a educação, a cultura e os municípios. Este é um
programa reconhecido internacionalmente, pelo que a aposta na sua expansão a todo o território
nacional e na criação de uma rede internacional de Escolas Azuis representa um caminho evolutivo
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 42
natural. Do ponto de vista internacional, sendo este um desafio não apenas português, mas sobre-
tudo global, importa também apoiar o desenvolvimento da literacia do oceano a nível internacional,
particularmente em países de expressão portuguesa e nas escolas portuguesas no estrangeiro.
A capacitação de funcionários da Administração Pública é, também, uma matéria relevante e par-
ticularmente potenciada através da promoção da colaboração com organismos internacionais nos
quais Portugal participa.
A população ativa deve ter a possibilidade de dar o seu contributo e de se formar nas mais
variadas profissões do mar, quer através do ensino superior quer das ofertas de educação e for-
mação de dupla certificação (para jovens adultos), levando à criação de massa crítica nos setores
público e privado, e promovendo a fixação local do emprego e a sua flexibilidade e mobilidade. Para
tal devem ser identificadas, analisadas e avaliadas as necessidades atuais e futuras do mercado
de trabalho. A implementação dos cursos de todos os níveis deve ser atrativa, cobrindo do ensino
presencial ao e-learning, e a formação prática e teórica, com certificações e empregabilidade
internacionais. É objetivo desta estratégia combater o desemprego e promover o desenvolvimento
económico equilibrado de todas as regiões do País. Os cursos devem privilegiar a ligação entre a
escola e as empresas, dando uma resposta concreta às necessidades de formação dos recursos
humanos, e devem ser mais flexíveis, com vista a responder a necessidades regionais específicas
e a certificações setoriais em áreas temáticas prioritárias para a economia.
Considerando a importância estratégica do mar para Portugal, com todas as suas implicações
económicas, científicas, sociais, culturais e ambientais, torna-se imperativo conceber uma estratégia
integrada de desenvolvimento de literacia do oceano, capaz de incluir e alcançar diferentes setores
e toda a sociedade. A estratégia para a literacia do oceano deve assentar num plano de imple-
mentação concreto (com os respetivos objetivos, indicadores e metas) suportado por mecanismos
de financiamento apropriados e enquadrada nos objetivos para o desenvolvimento sustentável,
respondendo aos objetivos prioritários da ENM 2021-2030 de forma direta, integrada e coesa. Será
relevante, também, assegurar o seu alinhamento com outros instrumentos estratégicos nacionais
e europeus como o Plano Nacional de Leitura, o Plano Nacional das Artes e com o novo Plano
de Ação para o Atlântico 2.0 da Comissão Europeia. É de salientar a necessidade de integrar as
diferentes iniciativas relacionadas com a cultura marítima, e a divulgação do património cultural
costeiro, de cariz material e imaterial, desenvolvidas em Portugal, de interesse para diferentes
setores da sociedade.
A visão adotada nesta década será mais inclusiva e holística, de acordo, por exemplo, com
as propostas da COI-UNESCO, adaptando-se a diferentes realidades e perspetivas. Importa
salientar a capacitação e formação certificada de agentes educativos de papel multiplicador (tanto
em educação formal como não formal), e a inclusão destes temas nos currículos dos vários níveis
de ensino. Devemos, ainda, incentivar a investigação na literacia do oceano, trazendo para esta
comunidade investigadores das áreas sociais e da educação para se desenvolver a investigação
em cultura e literacia do oceano.
AI3 — Biodiversidade e áreas marinhas protegidas
O oceano em Portugal apresenta uma enorme diversidade expressa ao nível genético, das
espécies, dos habitats e ecossistemas marinhos. Os nossos fundos marinhos e sistemas pelágicos
apresentam uma grande heterogeneidade e diversidade fisiográficas e geomorfológicas, traduzidas
numa importante riqueza geológica e biológica.
Contudo, para além de pressões antropogénicas diretas, estes ecossistemas marinhos estão
a ser impactados pelos efeitos das alterações climáticas que induzem aquecimento e acidificação
do oceano, fenómenos de hipóxia com alterações na produtividade biológica e sua distribuição.
Portugal tem uma experiência consolidada no conhecimento e conservação da biodiversidade
marinha, incluindo a criação e gestão de áreas marinhas protegidas, e é pioneiro na designação de
áreas marinhas protegidas oceânicas. Neste sentido, Portugal já assumiu o compromisso político
de classificar cerca de 30 % da área marítima sob jurisdição nacional até 2030, incluindo 10 % da
área marítima sob proteção estrita, em alinhamento com o objetivo estabelecido na Estratégia de
Biodiversidade da UE para as águas marinhas europeias. Por outro lado, Portugal aprovou em 2018
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 43
a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030, na qual se reafirma a
importância das áreas marinhas protegidas, e em 2019, as linhas de orientação estratégica e reco-
mendações para a implementação de uma Rede Nacional de Áreas Marinhas Protegidas. É crucial
que durante a próxima década estas estratégias sejam aplicadas contribuindo, decisivamente, para
preservar o património natural marinho, salvaguardar a estrutura, o funcionamento e a resiliência
dos ecossistemas marinhos e costeiros. Em concreto, e para além da designação de novas áreas
marinhas protegidas, urge elaborar e implementar os planos de gestão das áreas protegidas exis-
tentes, para aumentar a eficácia destes instrumentos de proteção da biodiversidade. A isto deverá
associar-se o compromisso com a agenda da Década para a Restauração dos Ecossistemas.
Para o desenvolvimento desta área temática será necessário promover redes coesas de
investigação e de desenvolvimento do conhecimento científico e técnico necessário, por um lado, à
definição das novas áreas a classificar e, por outro, à identificação, experimentação e avaliação da
eficácia de medidas de gestão e restauro da biodiversidade. Será igualmente necessário envolver as
comunidades costeiras, os agentes económicos, em especial as organizações do setor das pescas,
e os Grupos de Ação Costeira através de mecanismos participativos e de corresponsabilização
pela conservação dos recursos naturais e da biodiversidade.
A conservação da biodiversidade marinha constitui uma das vertentes ambientais da política
do mar mas constitui-se igualmente como uma questão de cariz económico. A biodiversidade é
alvo de atividades económicas relevantes, como a pesca e as atividades marítimo-turísticas, e os
ecossistemas costeiros e marinhos fornecem um conjunto de serviços essenciais à sociedade,
como por exemplo a regulação do clima, a produção primária ou a criação de recursos genéticos,
que têm de ser valorizados e contabilizados.
AI4 — Bioeconomia e biotecnologia azul
Um dos objetivos primordiais da bioeconomia é a substituição de recursos fósseis por recursos
renováveis (matérias-primas, subprodutos ou resíduos) de base biológica com um perfil de desem-
penho superior e impacto ambiental inferior. A bioeconomia azul, considerada como um dos mais
promissores setores emergentes da economia azul, inclui a exploração biotecnológica de todos os
grupos de recursos marinhos vivos não tradicionais, de todas as aplicações comerciais derivadas da
sua biomassa e ainda dos fluxos de desperdício e subprodutos que do seu processamento possam
ser gerados. Este grupo de organismos marinhos inclui as macroalgas, os microrganismos (microal-
gas, bactérias e fungos) e os invertebrados (como equinodermes, esponjas, corais e moluscos).
Apesar de no passado estes biorrecursos marinhos terem tido uma utilização mais tradicional
como alimentação humana ou animal e, por vezes, como biofertilizantes (algas), atualmente são as
novas aplicações comerciais que estão em franco crescimento. Estas novas aplicações incluem o
desenvolvimento de produtos e serviços de elevado grau tecnológico para os mercados farmacêutico
e médico, veterinário, nutracêutico, da alimentação funcional e desportiva, haute cuisine, cosmético
e de bem-estar, dos biocombustíveis, da moda, da biorremediação ou ainda da engenharia natural,
que devem ser devidamente protegidos por meio de direitos de propriedade industrial.
Os conceitos de sustentabilidade e circularidade devem ser inerentes à biotecnologia azul.
As diversas aplicações desta tecnologia permitem desenvolver conceitos de valorização integral
desses biorrecursos com base nas biorrefinarias, procurando zero desperdício, gerando não só
várias cadeias de valor para um único biorrecurso, mas também permitindo modelos de negócio
mais ágeis e diversificados para as entidades que as instalam e operam.
Nesta década, Portugal deve fortalecer a sua aposta na biotecnologia azul e no desenvolvimento
de uma bioeconomia azul mais robusta e expressiva. Importa reforçar as pontes entre a academia
e a indústria, canalizar investimento para a inovação e desenvolver parcerias flexíveis dedicadas
à procura de soluções para problemas concretos, estimulando a contratação de investigadores
pelo tecido empresarial.
Deve ser dada a primazia de apoio e financiamento público a projetos descarbonizantes, cir-
culares e sustentáveis. No entanto, para que tal aconteça, a biotecnologia azul nacional precisa de
ganhar escala e mundo. É necessário um reforço das competências dos potenciais empreendedores,
formação complementar relevante para os atuais e futuros cientistas marinhos, assim como para
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 44
muitos dos atuais empreendedores que podem ter de repensar os seus negócios. O reforço da
escala de investimento e produção, bem como da internacionalização das empresas deste setor,
devem estar na mira das políticas públicas de apoio e financiamento ao setor.
A bioprospeção marinha em águas nacionais, principalmente em mar profundo, deve continuar
para aumentar o conhecimento científico dos recursos genéticos marinhos com potencial biotec-
nológico que temos em Portugal; no entanto, as leis de acesso aos mesmos e as obrigações de
quem deles pretende beneficiar têm de ser clarificadas. Devemos assegurar que as disposições
do Protocolo de Nagoia e da legislação europeia e nacional sobre partilha de benefícios da biodi-
versidade são efetivamente implementadas em Portugal. Uma maior cooperação entre academia
e indústria, incluindo colaboração internacional, e a criação de um Hub Digital azul, onde se con-
centram todos os dados das coleções marinhas nacionais, pontos e condições de acesso, bem
como de infraestruturas de prototipagem e scale up de produção, biorrefinarias e processamento
de biomassa marinha, e ainda os Laboratórios Colaborativos (CoLabs) na área do mar, revestem-
-se de natureza estratégica para o reforço de uma potencial liderança e crescimento deste setor
aos níveis europeu e internacional.
AI5 — Pescas, aquicultura, transformação e comercialização
A fileira das pescas e aquicultura, incluindo a transformação e comercialização, é uma das áreas
de intervenção prioritárias para a concretização de vários objetivos desta estratégia. A minimização
de impactos nas espécies vulneráveis e nos ecossistemas marinhos, a criação de novos produtos e
processos e o desenvolvimento de modelos de negócio assentes numa lógica de economia circular
e digital são alguns dos seus desafios mais prementes.
A pesca tem um papel importante no equilíbrio socioeconómico de várias comunidades costei-
ras e desenvolve sinergias com outros setores de atividade como a construção e reparação naval,
a comercialização e transformação de pescado, e o turismo. Cada vez mais, esta atividade deve
reger-se pelos princípios da Política Comum das Pescas da UE, nomeadamente no que respeita à
sustentabilidade dos recursos. A evolução positiva do estado dos recursos capturados em águas
nacionais são a evidência de que tem sido seguida uma política de ajustamento da capacidade da
frota às oportunidades de pesca em termos gerais, ainda que se registem situações particulares
que carecem de intervenção.
Temos, atualmente, uma frota de pesca com idade elevada, que apresenta algumas insuficiên-
cias a nível de habitabilidade, mas é importante referir que grande parte das embarcações foi objeto
de modernização e são detentoras de equipamentos de tecnologia moderna. Importa, no entanto,
continuar a apostar na inovação, na melhoria das condições de trabalho a bordo, na segurança e
na eficiência energética, bem como nas condições de acondicionamento do pescado, de modo a
fomentar a sua valorização pela qualidade. Para além da qualidade, a sustentabilidade dos recursos
pesqueiros deve ser um fator de diferenciação e valorização dos produtos da pesca no mercado, que
está cada vez mais sensibilizado para a componente ambiental. Igualmente deverá incentivar-se a
rastreabilidade do pescado promovendo o que é produzido em Portugal, recorrendo a tecnologias
como o rastreio molecular de identificação ou a blockchain, bem como a utilização de meios de
vigilância e fiscalização no mar e em terra, prevenindo, assim, a pesca ilegal não declarada e não
regulamentada e a comercialização errónea de pescado.
Importa também dignificar a profissão e promover a capacitação dos pescadores e seus repre-
sentantes, apostando na formação e certificação técnico-profissional, que deverá incluir conceitos de
sustentabilidade ambiental. Em particular, a formação deve incidir na redução de desperdícios e na
valorização das capturas, associada à relação preço/quantidade. É essencial a racionalização das
capturas baseada em necessidades de mercado, evitando desperdícios e devoluções ou reduções
de preço significativas, com prejuízos para os operadores e organizações representativas, que ficam
sem capacidade de intervir na cadeia de valor. A formação de pescadores deve também contribuir
para captar mais jovens para a atividade da pesca e facilitar a mobilidade entre profissões do mar,
criando sinergias com os setores turístico, dos transportes e da aquicultura.
Deve ser ainda dada prioridade ao estudo do impacto das pescas nas espécies mais vulnerá-
veis e nos ecossistemas marinhos e costeiros e dar continuidade à denominada transição ecoló-
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 45
gica da pesca, promovendo o abandono de práticas e métodos mais destrutivos em prol de outros
mais sustentáveis, e a redução do lixo marinho produzido na pesca. Este é um contexto em que o
envolvimento das organizações de produtores na gestão sustentável de cada manancial de pesca
deve ser reforçado, promovendo-se uma efetiva cogestão da pesca com os diferentes interessados.
Importa, também, promover a criação de circuitos curtos de comercialização de pescado, de proxi-
midade, servindo todos os centros de consumo, independentemente da sua dimensão, valorizando
tecnologias de conservação e processamento de pescado e a monitorização da sua qualidade.
Neste sentido, é de realçar o papel determinante das organizações de produtores no incremento
da valorização do pescado, incluindo por processos de acondicionamento e de transformação com
posterior reentrada no mercado para o consumo humano.
A aquicultura ganha cada vez mais peso num contexto em que a produção pesqueira nacio-
nal é insuficiente para abastecer o consumo e as capturas de peixes marinhos são limitadas, num
quadro de gestão e exploração sustentável dos recursos marinhos vivos. A aquicultura nacional
constitui assim uma importante alternativa às formas tradicionais de abastecimento de pescado e
dispõe de um grande mercado, de uma longa tradição de produção de moluscos e peixes em água
doce e água salgada, que nos últimos anos tem recorrido a tecnologia avançada e moderna. Neste
contexto, deve promover-se o desenvolvimento sustentável da aquicultura, em áreas previstas no
Plano de Situação do Ordenamento do Espaço Marítimo Nacional e no Plano para a Aquicultura
em Águas de Transição, fomentando elevados padrões de qualidade ambiental, quer nas estru-
turas produtivas em mar aberto, quer nas unidades de produção situadas em águas de transição
ou onshore.
A estratégia de desenvolvimento deve passar também pela promoção da aquicultura multitrófica
integrada, de forma a aumentar a capacidade produtiva e diversificar a produção, diminuindo os
impactos no meio marinho. Devem investigar-se novas metodologias de cultivo e novas espécies
para consumo humano e para outros fins. Adicionalmente, deve ser fomentado o cultivo de algas e
de outras espécies autóctones de baixo nível trófico, de forma a reduzir a dependência da pesca, o
desenvolvimento de produtos de aquicultura de origem local numa ótica da cadeia de valor, apos-
tando em soluções que privilegiem a economia circular e a utilização de subprodutos e recursos
pouco explorados de origem local, apoiando também novos conceitos de embalagem, rotulagem
e produto sustentáveis. O reforço da aquicultura offshore, já realizada na Região Autónoma da
Madeira com maturidade, é uma das linhas de atuação a prosseguir, valorizando e capitalizando o
conhecimento adquirido e promovendo efeitos de arrastamento para outros setores, como o turismo
e outras atividades offshore. Estas são linhas orientadoras que vão ao encontro da intenção reve-
lada na Estratégia «Do Prado ao Prato», da Comissão Europeia, que visa um sistema alimentar
sustentável e seguro.
A transformação e comercialização dos produtos da pesca e da aquicultura é um fator de
valorização dos mesmos, devendo os seus coprodutos ser aproveitados e valorizados. O setor
da transformação e comercialização dos produtos da pesca e aquicultura beneficia da elevada
qualidade do pescado nacional e do saber associado aos produtos processados, estando em
boas condições para posicionar alguns produtos em segmentos especializados, bem como para
desenvolver novos produtos em resposta à procura atual, criando valor acrescentado e apostando
crescentemente em mercados externos. A escassez de alguma matéria-prima para abastecimento
da indústria de transformação de pescado, agravada pela diminuição de alguns stocks, restrições
às capturas e, sobretudo, aumento do consumo a nível mundial, forçam a indústria nacional a
procurar alternativas com origem na aquicultura. Campanhas promocionais que redirecionem os
consumidores para o consumo de espécies de baixo valor comercial e com potencialidades de
exploração sustentáveis podem contribuir também para reduzir a dependência externa do abaste-
cimento de matéria-prima.
AI6 — Robótica e tecnologias digitais
Ao longo das duas últimas décadas, fruto do dinamismo e excelência de um número elevado
de instituições e investigadores nacionais e de parcerias estabelecidas com instituições interna-
cionais, Portugal tem-se afirmado como pioneiro na área dos sistemas robóticos marinhos e nas
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 46
suas aplicações a um conjunto de atividades que envolvem uma simbiose estreita entre as ciências
e as tecnologias do mar. A dimensão, a profundidade média, a meteorologia atlântica e a elevada
energia do mar português colocam grandes desafios à implementação das linhas estratégicas aqui
definidas.
O desafio da presença sustentada e sustentável nas áreas marítimas portuguesas só pode
ser cabalmente endereçado com o recurso aos sistemas e às tecnologias robóticas, articuladas
com outros meios digitais e físicos e sistemas de realidade imersiva. Este desafio só pode ser ultra-
passado com uma abordagem focada nas especificidades nacionais, com uma efetiva articulação
de desenvolvimentos, com testes e operações, e tirando partido das capacidades de engenharia
e ciência e das infraestruturas nacionais, no sentido de minimizar os custos de projetos e opera-
ções. Para além da observação e mapeamento, da monitorização ambiental e da identificação e
proteção do património cultural náutico e subaquático, da fiscalização da soberania de Portugal no
mar e da gestão dos seus recursos, a robótica é já uma ferramenta fundamental em vários outros
setores e atividades. É o caso da construção naval, dos sistemas de inspeção de infraestruturas
(energia renovável offshore, portos e outras infraestruturas subaquáticas, como cabos submarinos),
da exploração de recursos biológicos e não vivos, das pescas e aquicultura, e da manipulação,
transformação e rastreabilidade dos seus produtos.
Nesta década preconizam-se grandes desafios à comunidade científica e tecnológica nacio-
nal que servirão de catalisadores para o desenvolvimento da robótica e das tecnologias digitais.
Citam-se três exemplos — o mapeamento do mar profundo e o levantamento dos seus recursos, a
deteção, seguimento, e recolha automática de concentrações de elementos poluentes na coluna de
água (incluindo micro e nanoplásticos) e a inspeção, monitorização e reparação de infraestruturas
subaquáticas de grande porte, cada vez mais prevalentes nas áreas da aquicultura e aproveitamento
de energias renováveis offshore.
Urge, assim, definir iniciativas estratégicas que façam apelo à criação de equipas multidis-
ciplinares, conjuntamente entre a academia e a indústria, que possam adquirir coletivamente, no
decurso de trabalho conjunto e operações no mar, os meios e métodos inovadores e eficazes para
o estudo e exploração dos oceanos às escalas exigidas pelos fenómenos em causa. Esta definição
será também determinante para a criação de pequenas e médias empresas dedicadas ao desenvol-
vimento, patenteamento e comercialização de tecnologia marítima, certamente um fator de criação
de riqueza a nível nacional. Neste sentido, devem ser desenvolvidos sistemas especializados e
sistemas de baixo custo, facilmente replicáveis e seguros, tendo em vista preencher lacunas de
capacidades relativas às operações à superfície, na coluna de água e no mar profundo.
As características do espaço marítimo nacional, em termos de área e profundidade, apontam
para necessidades de desenvolvimento ou adaptação de tecnologias já existentes, nomeadamente
de sistemas de veículos para operações aéreas, à superfície ou na coluna de água de longa dura-
ção e para operação no mar profundo. Estes sistemas deverão ser desenvolvidos tendo em vista
a facilidade de lançamento e recolha por outros meios, a interoperabilidade com outros sistemas e,
ainda, a operação coordenada com outros meios e sistemas. Estas características permitirão uma
mudança de paradigma da operação de veículos para a operação de sistemas de observação do
oceano que efetivamente coordenem veículos robóticos submarinos, de superfície, aéreos e espaciais
(em que se incluem pequenos satélites) e outros sistemas, entre os quais se incluem plataformas
tripuladas. A interdisciplinaridade das ciências e engenharia envolvidas com outras áreas como
a inteligência artificial, a bioquímica e a física são fundamentais para o sucesso neste domínio.
As tecnologias digitais e as ferramentas de controlo remoto de apoio à decisão e à troca de
informação, monitorização e identificação, revelam-se fundamentais em contexto de gestão de
crises humanitárias e como coadjuvante da deteção por antecipação de incidentes e ilícitos no
mar. Merecem referência especial as tecnologias de observação remota do oceano a partir do
espaço e as suas múltiplas aplicações. As tecnologias digitais reforçam, também, os mecanismos
de simplificação e oferecem uma visão de proximidade e de conjunto dos cenários inerentes ao
transporte marítimo, sendo indissociáveis dos conceitos de portos inteligentes e de fronteiras inte-
ligentes. Concorrem neste sentido a Janela Única Portuária, a Janela Única Logística e a Janela
Única Marítima Europeia.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 47
A conjunção de saberes e capacidades tecnológicas e uma orientação estratégica clara para
quais as áreas prioritárias de desenvolvimento permitirão um avanço significativo neste setor e
indústria e terão um forte impacto em outros domínios, como a conservação da biodiversidade, a
salvaguarda do património cultural náutico e subaquático, a segurança marítima, as energias reno-
váveis, as pescas, a aquicultura e a exploração de recursos não vivos, interligando assim diferentes
áreas de intervenção prioritária.
AI7 — Energias renováveis oceânicas
Para cumprirmos os objetivos nacionais do RNC 2050, devemos assistir nesta década à ado-
ção progressiva de tecnologias custo-eficientes capazes de ampliar o potencial de utilização dos
recursos endógenos renováveis do País. Assim, Portugal continuará a sua transição energética,
primeiramente nos setores e tecnologias com custo-eficácia mais baixos e depois, progressivamente,
em setores e tecnologias mais dispendiosos até se atingirem as reduções de emissões pretendidas,
de 45 % a 55 % em 2030 e de 85 % a 90 % em 2050 (face a 2005). As metas e objetivos definidos
para o setor eletroprodutor nacional, no que concerne a energias renováveis oceânicas, estabele-
cem cerca de 370 MW de eólica offshore e ondas até 2030, nos termos do PNEC 2030, e que seja
alcançado até 1,3 GW de eólica offshore em 2050, nos termos do RNC 2050. Estas metas decorrem
do grau de amadurecimento da tecnologia eólica offshore (amarração flutuante), particularmente
adequada à batimetria do nosso mar e também do estabelecimento de zonas piloto com infraestru-
tura de suporte, bem como de uma Estratégia Industrial para as Energias Renováveis Oceânicas.
Só após longos anos de intensa I&D é que Portugal finalmente conseguiu concretizar um projeto
comercial para produzir energia a partir de fontes renováveis oceânicas. Contudo, os custos de
capital associados ao aproveitamento destas energias ainda são demasiado elevados para que as
tecnologias de energia das ondas e das marés sejam competitivas a curto prazo. Assim, o facto de
Portugal possuir uma das maiores zonas económicas exclusivas da Europa, com características
muito próprias, não é em si mesmo garante de produção de energias renováveis oceânicas, mas
constitui uma oportunidade com imenso potencial diferenciador ainda por investigar, inovar e investir.
Importa neste contexto assinalar a experiência de empresas portuguesas no fabrico de turbinas,
plataformas, amarrações e cabos em resultado do desenvolvimento do setor eólico onshore e da
participação em projetos internacionais offshore, o que valerá a pena rentabilizar no contexto da
economia do mar.
Portugal já dispõe, atualmente, de uma zona piloto para desenvolver projetos, em diferentes
fases, sejam estes demonstradores, em estado pré-comercial ou comercial, devidamente articulada
com a concessão da Rede Nacional de Transporte, no que concerne às infraestruturas de transporte
de energia (incluindo os cabos submarinos) que asseguram a ligação entre a produção de energia
e a Rede Elétrica de Serviço Público. Portugal dispõe, igualmente, de diversos registos de patentes
de energias renováveis oceânicas, de forte conhecimento industrial eólico, de um Atlas do Potencial
Eólico Offshore, crucial para o planeamento de novas centrais eólicas offshore, e de um sistema
científico e tecnológico cada vez mais direcionado para o oceano e para as energias renováveis.
O caráter insular das nossas regiões autónomas estimula também o investimento nesta área, a
par da análise da viabilidade técnica e económica de interligações entre ilhas por cabo submarino,
integrando uma infraestrutura marítima de produção, armazenamento e distribuição de energia, à
imagem das redes terrestres. É essencial concertar posições no seio da I&DI, agregando massa
crítica, entre empresas, universidades, centros de investigação, Administração Pública e setor
financeiro para promover, também, sinergias com outros setores, como a aquicultura, a robótica e
sistemas de monitorização e vigilância marítima. O Estado e a Administração Pública devem ser
capazes de promover processos de simplificação ao serviço dos utilizadores do mar, cidadãos e
empresas. Devemos estruturar a cadeia de valor para uma nova fileira exportadora na produção
metalomecânica, serviços de construção, manutenção e reparação naval, instalação e operações
offshore, de assessoria e estudos e ciência de dados.
Portugal é um país estratégico para a realização de testes em vários setores oceânicos, tendo
capacidade para atrair, deste modo, investimento direto estrangeiro e experimentar novas soluções
na produção e armazenamento de energia renovável, como o hidrogénio verde. Para tal, e também
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 48
para minimizar potenciais conflitos com outros usos do mar, os instrumentos de ordenamento do
espaço marítimo devem prever novas zonas piloto, com avaliações ambientais estratégicas reali-
zadas, devidamente infraestruturadas e com condições de acesso célere, simplificado e de baixo
custo.
AI8 — Turismo, náutica de recreio e desporto
Portugal beneficia de condições privilegiadas para o turismo costeiro e de mar e para as ati-
vidades náuticas, de recreio e desportivas. Além da dimensão dos recursos territoriais para estas
atividades, a maritimidade integra também a imagem internacional do País. Em 2018, e em termos
globais, o turismo representou 8,0 % do valor acrescentado bruto (VAB). Para o mesmo ano, os
setores do recreio, desporto e turismo constituíram 71,9 % dos empregos e 69,8 % do VAB (91 mil
pessoas e 2,3 mil milhões de euros) do total da economia do mar.
No entanto, as áreas do turismo, da náutica de recreio e desportos associados criam pressões
várias sobre os ecossistemas e espécies marinhas, sobre o património costeiro e subaquático,
e suscitam questões relativas à segurança da navegação, em especial a nível local, devendo a
carga turística das diferentes zonas, especialmente as mais sensíveis, ser equilibrada. Importa,
assim, assegurar a sustentabilidade do turismo, garantindo o funcionamento deste importante setor
da economia. Esta tem sido uma preocupação de Portugal em linha com a UE e com a Agenda
Europeia para o Turismo 2050 que pretende ser um roteiro para um turismo resiliente, inovador e
sustentável. Enquadradas neste contexto, as áreas prioritárias do turismo centram-se no turismo
de mar e sol, no turismo de saúde (incluindo a talassoterapia), na criação de parques arqueológicos
subaquáticos e roteiros de pontos de mergulho, nas atividades ligadas à observação de cetáceos
e outras espécies marinhas, e no turismo científico. Nestas áreas, devem conduzir-se avaliações
periódicas para identificar as zonas mais vulneráveis em termos de carga turística e determinar o
seu espetro de utilização. Outras preocupações a ter em conta são a necessidade de se contribuir
para a coesão territorial através de redes coordenadas dedicadas a atividades náuticas e de garantir
a segurança no mar em zonas balneares durante grande parte do ano.
Em alinhamento com a Estratégia para o Turismo 2027, deve continuar a promover-se a cap-
tação de rotas de cruzeiros para os portos do País, facilitando-se o desembaraço de passageiros e
a mobilização dos meios logísticos associados à operação de escala, o que implica uma estratégia
concertada de gestão de espaços e dinâmicas automatizadas de simplificação de procedimentos.
A náutica de recreio está em crescimento em Portugal, ligada à promoção do convívio com a
natureza e às condições físicas existentes. Trata-se ainda de uma área com potencial para gerar
emprego especializado e que associa diversas atividades e infraestruturas, como a construção
naval ou os estaleiros dedicados. Este potencial é demonstrado pelo sucesso da rede de Estações
Náuticas de Portugal na diversificação da oferta turística, na redução da sazonalidade e na geração
de emprego nas regiões onde se inserem.
A prioridade neste setor concentra-se em dois eixos principais: o primeiro é a promoção de
uma rede de infraestruturas diversificada de apoio à náutica de recreio, incluindo as atividades
marítimo-turísticas, designadamente através da qualificação de marinas, docas, cais de acostagem
e tomada de passageiros e estruturas de apoio, da valorização do património cultural costeiro e
marítimo e do envolvimento das comunidades locais e dos setores do Estado relacionados com
a segurança e defesa; o segundo é o desenvolvimento do quadro regulamentar das atividades
marítimas de recreio, de forma integrada.
A prática de desportos náuticos movimenta um número elevado de desportistas, tanto na ver-
tente profissional como lúdica, conferindo dinamismo aos locais onde estas atividades decorrem e
promovendo o desenvolvimento das comunidades costeiras de uma forma sustentável, equilibrada
e segura. É ainda um meio privilegiado para a consciencialização da sociedade relativamente à
importância do meio marinho. A vela, o surfing e os desportos de grandes ondas muito têm contri-
buído para esta realidade e devem continuar a ser fomentados, tendo-se observado, também, um
crescente interesse pelo mergulho recreativo.
Assim, no domínio dos desportos náuticos, a prioridade centra-se na ligação formativa dos
cidadãos ao mar e ao património marítimo, envolvendo as comunidades, promovendo elos efetivos
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 49
entre clubes e associações de desportos náuticos e a escola, contribuindo para uma sociedade
mais atenta ao mar, na vertente lúdica, e para uma base mais alargada de praticantes que potencie
a dinamização da alta competição, na vertente profissional. Na vertente desportiva de alta competi-
ção, devemos continuar a estimular a organização de grandes eventos que projetem a imagem de
Portugal em termos internacionais. A continuação do desenvolvimento do desporto escolar náutico
será também fundamental para a prossecução deste objetivo, através do apoio aos Centros de For-
mação Desportiva do Desporto Escolar e Grupos-Equipa do Desporto Escolar. É ainda de salientar
o papel do desporto escolar na iniciação de modalidades desportivas náuticas (como canoagem,
surfing, vela e remo), que tem contribuído para a dinâmica do associativismo local através de fortes
parcerias. Neste domínio é determinante realçar o papel dos Centros de Formação Desportiva do
Desporto Escolar na inclusão e plena integração de pessoas com limitações funcionais (oferta ao
nível de desporto adaptado), na integração de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade
e na criação de oportunidades no âmbito da igualdade de género. Por último, importa valorizar a
produção local de equipamentos para este tipo de desportos, tendo Portugal já alguns produtores
de grande qualidade, reconhecidos a nível internacional. É necessário, por um lado, promover a
produção destes equipamentos em maior escala e, por outro, desenvolver um trabalho de reco-
nhecimento e promoção de certificado de qualidade nacional.
AI9 — Portos, transportes marítimos, logística e comunicações
Portugal detém na sua herança marítima e na sua centralidade atlântica um posicionamento
geoestratégico que lhe permite continuar a apostar na sua maritimidade e na sua potencialidade
enquanto hub atlântico nas cadeias logísticas globais de base marítima.
Assim, o reforço desta posição no cruzamento das principais rotas marítimas internacionais
deve assumir um papel central de atuação, designadamente na aposta da componente do tráfego
de carga contentorizada, fazendo do País uma plataforma giratória de cargas entre os continentes
europeu, americano e africano, na componente do turismo marítimo sustentável e na componente
de serviços e abastecimento de energias limpas.
Para este efeito, a gestão e a promoção da marca «Portos de Portugal» deve ser uma prioridade
no campo internacional, tirando partido dos portos como elementos agregadores para fazer crescer
Portugal como plataforma de movimentação de mercadorias no Atlântico, através da captação de
linhas de transporte marítimo e da fixação de empresas no seu território, em linha com a Estratégia
para o Aumento da Competitividade da Rede de Portos Comerciais do Continente — Horizonte
2026 e o Plano de Ação para o Atlântico 2.0 da Comissão Europeia. Neste contexto, o ordenamento
portuário, na relação com as cidades e na intermodalidade com o território e na ligação com as
redes de transporte internacional, agregado ao conjunto de novos projetos de expansão portuária,
deve permitir ambicionar novas dimensões de crescimento e de desenvolvimento económico do
País, mantendo e gerando mais emprego e riqueza, sempre no estreito respeito dos objetivos de
sustentabilidade ambiental e salvaguarda do património cultural. O ordenamento portuário deverá
proporcionar uma paisagem mais sustentável à medida que oferece oportunidades emergentes
para as populações das áreas ribeirinhas e para os pequenos negócios, repensando o futuro à
beira-mar como uma oportunidade de implementar novos e coesos modelos de comunidades por-
tuárias seguras, sustentáveis, inclusivas e resilientes. Este é um setor que contribui para o sucesso
de outras áreas da economia do mar, como o turismo, as pescas, a aquicultura, a construção e
reparação naval e as energias renováveis oceânicas.
Por outro lado, a operação portuária deverá cada vez mais acompanhar os melhores indicadores
de produtividade e segurança, dentro de um quadro de estabilidade laboral e de sustentabilidade
económica para todas as partes envolvidas. Deverá ser dada prioridade à gestão moderna de
portos, através da fixação de relações de longo prazo com operadores de referência no mercado
internacional e com a prática de tarifários competitivos, catalisadores na atração de serviços e
empresas.
Em toda a cadeia logística e, em particular, nas novas concessões e áreas operativas, uma
contínua adaptação na transição energética, na segurança informática e na proteção do ambiente é
fundamental, designadamente na gestão de resíduos nos portos e na redução da poluição marinha
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 50
e atmosférica. Igualmente importante é uma contínua aposta no estado-da-arte da automação, digi-
talização e simplificação de procedimentos. Por esta razão, o mar ocupa um lugar de destaque nos
projetos do SIMPLEX, em matéria de simplificação, digitalização, mas também de dados abertos
e rigorosos critérios de segurança no ciberespaço. Neste quadro de transformação digital, deve
salvaguardar-se a segurança da informação e a cibersegurança, de forma a garantir a integridade,
disponibilidade e confidencialidade da informação, dos processos e dos negócios subjacentes. Deve,
igualmente, assegurar-se que os serviços públicos online disponibilizados nos balcões setoriais da
área governativa do mar beneficiam da criação de uma plataforma digital única para a prestação de
acesso a informações, a procedimentos e a serviços de assistência e de resolução de problemas,
tendo em vista a integração no Mercado Único Digital Europeu, a que se refere o regulamento
relativo à criação de uma plataforma digital única, com a disponibilização no portal ePortugal de
toda a informação sobre os serviços e procedimentos necessários nestas matérias.
Os portos deverão repensar de forma inovadora a sua capacidade de armazenamento e pro-
cessamento e encontrar novas maneiras de atender à procura. Complementarmente, os portos e as
suas acessibilidades marítimas e terrestres devem ser seguros e fluidos, através da implementação
de planos de desenvolvimento e de manutenção das condições adequadas de operacionalidade.
No transporte marítimo, Portugal deve continuar a apostar na simplificação legislativa e na
criação de um novo posicionamento estratégico que permitirá aumentar a reputação e a competitivi-
dade dos seus registos de navios, dentro do rigor técnico exigido e do adequado acompanhamento
junto das instituições internacionais, permitindo, designadamente, aumentar a captação de clientes
premium. Destaque para o facto de, em 2020, o Registo Internacional da Madeira ser já classificado
como um dos principais registos europeus. Neste sentido, é importante manter uma abordagem
estratégica abrangente que assegure, nomeadamente, o cumprimento das obrigações de Portugal
como estado de bandeira, estado portuário e estado costeiro no âmbito da OMI.
A proteção e a segurança marítima nas suas diferentes valências deverão ser uma prioridade,
conjuntamente com todas as componentes de green shipping. Neste contexto, deve redesenhar-se a
tecnologia marítima em torno de novas alternativas de construção e manutenção, redução de emis-
sões e descarbonização das tecnologias de propulsão, desenvolvimento de embarcações autónomas
ou «inteligentes», bem como de tecnologias de informação marítima e investimentos ambientalmente
sustentáveis. A este respeito, é de salientar a importância do assinalamento marítimo, prevendo-se
a migração dos atuais sistemas de assinalamento para novos sistemas com autonomia energética,
assentes em energias renováveis. As infraestruturas portuárias são também um complemento da
rede europeia de energia, assegurando o abastecimento das regiões insulares e estendendo o
potencial aproveitamento de energias renováveis do Atlântico ao continente europeu.
Do lado da logística, são igualmente vitais os investimentos na adequação das infraestruturas
e equipamentos que permitam responder ao crescimento portuário, ao aumento da dimensão dos
navios e à crescente procura nas ligações aos seus hinterlands, particularmente, nas estruturas de
proteção e acessibilidades marítimas, nos acessos ferroviários e rodoviários e no desenvolvimento
de zonas logísticas, incluindo áreas de facilitação comercial internacional, sem esquecer a aposta
no desenvolvimento das ligações rodoviária, ferroviária e aérea referentes à rede principal da Rede
Transeuropeia de Transportes (RTE-T). A construção de parcerias com todos os atores públicos
e privados e o desenvolvimento de soluções intermodais com todas as cadeias de distribuição e
de abastecimento devem permitir promover soluções de integração da atividade com as cadeias
logísticas de suporte ao transporte de mercadorias e ao transporte de última milha. Este crescimento
deverá ser acompanhado de engenharia natural, de apostas na recuperação, de fomento da resili-
ência dos ecossistemas marinhos adjacentes e costeiros e da salvaguarda do património cultural.
Portugal, pela sua posição geográfica, infraestruturas e outros fatores favoráveis aos setores
portuários e dos transportes marítimos, deve também explorar oportunidades associadas à criação
de pontos de amarração de cabos submarinos. Num mundo crescentemente interligado, estas
oportunidades incluem a instalação de interconnection hubs e de data centres, a possibilidade de
recolher informação ambiental e sísmica, digitalizar o oceano e melhorar a facilidade de comuni-
cações em todo o território nacional (continente e ilhas) potenciando a criação de valor e emprego.
No decorrer desta década, devemos aproveitar oportunidades para Portugal participar em novas
ligações a cabos internacionais que cruzarão os nossos espaços marítimos.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 51
AI10 — Estaleiros, construção e reparação naval
As indústrias da construção e reparação naval e dos equipamentos e tecnologias marítimas
figuram entre os setores estratégicos europeus, assegurando emprego e sustentando o tecido
industrial de várias regiões. Estão também ligadas a outras atividades prioritárias para Portugal,
como os transportes marítimos, a segurança marítima, as energias renováveis oceânicas, as pes-
cas, a aquicultura, a I&D e a monitorização ambiental. Este grupo de indústrias foi considerado um
dos componentes para o sucesso da Estratégia Europa 2020, na medida em que se enquadra na
prioridade de desenvolver uma economia baseada no conhecimento e na inovação (crescimento
inteligente), de promover uma economia mais eficaz, mais ecológica e mais competitiva (cresci-
mento sustentável) e de estimular uma economia com taxas de emprego elevadas, oferecendo ao
mesmo tempo a coesão social e territorial (crescimento inclusivo).
Face aos desafios enfrentados pelo setor a nível europeu, nomeadamente a forte concorrência
internacional de países asiáticos em resultado do apoio estatal ao setor por parte destes países
e do baixo nível de preços e diferenças cambiais, a Comissão Europeia tem vindo a desenvolver
um conjunto de medidas políticas concretizadas em programas como o LeaderSHIP2015 e o
LeaderSHIP2020. A Europa apostou na liderança tecnológica (já existente em segmentos de mercado
selecionados), na proteção da inovação e do know-how e na produção baseada no conhecimento
tornando esta indústria europeia num líder global na construção de embarcações mais complexas
e tecnologicamente avançadas no que respeita à automação e sustentabilidade.
A indústria de construção e reparação naval portuguesa apresenta vantagens competitivas
devido à localização geoestratégica do País, colocando-o no centro das principais rotas marítimas,
às condições climáticas e à disponibilidade de mão-de-obra qualificada. Trata-se de um setor consi-
derado estratégico para Portugal, que assegura emprego e riqueza ao longo das diferentes indústrias
que pertencem à respetiva cadeia de valor, devendo, portanto, ser apoiado no desenvolvimento de
sistemas tecnológicos de otimização e controlo da produção que lhe permitam competir dentro do
mercado europeu, baseado numa imagem de qualidade e sustentabilidade. Pode, também, bene-
ficiar do desenvolvimento de tecnologias como os sistemas para observação remota da Terra, para
fiscalização, controle e comunicação, apostas que constituem um incentivo à capacidade produtiva
nacional, à reindustrialização e à redução da dependência do setor face ao exterior, promovendo o
envolvimento de empresas de outros setores no fabrico de plataformas para uso no mar.
Os estaleiros navais, particularmente os de menor dimensão, devem também robustecer a
sua capacidade de responder à renovação e manutenção das embarcações da frota de pesca e
embarcações e estruturas de apoio à aquicultura. Devem ainda apostar na recolha e transmissão
do saber acumulado de várias gerações sobre construção e reparação de embarcações tradicionais,
enquanto nicho de negócio com elevada procura nacional e internacional no âmbito da náutica
de recreio. As diferentes medidas definidas terão em vista o apoio à dinamização desta atividade
que, apesar de tradicional, detém um know-how nacional acumulado e apresenta um elevado valor
acrescentado de inovação e de criação de novos produtos.
A aposta nacional na I&DI azul colocará este setor na liderança de um novo modelo sustentável
de construção naval. A produção e reconversão de embarcações em embarcações limpas, com um
menor nível de emissões de carbono (clean ships ou green vessels), sem descargas no mar e com
menos ruído, são fatores chave no combate às alterações climáticas, à perda de biodiversidade e à
poluição. O mesmo acontece com o design e a construção de embarcações comerciais de grande
comprimento com mais de 500 GT (cerca de 50 m de comprimento) com cascos feitos inteiramente
de materiais compósitos, que permitirá uma redução significativa no peso estrutural e na estabilidade
das embarcações, com a consequente redução do consumo de energia, de emissões de gases
com efeito estufa e de ruído subaquático. Por outro lado, o desenvolvimento e aproveitamento de
plataformas offshore multiúsos permitirá apostar na produção e no uso de novas formas de energia
de fontes renováveis, como por exemplo o hidrogénio. Tal opção, aliada ao estabelecimento de
sinergias com a indústria de energia eólica offshore promove a autonomia energética do País na
senda da neutralidade carbónica, estando devidamente alinhada com a Estratégia Nacional para
o Hidrogénio, a Estratégia Industrial para as Energias Renováveis Oceânicas e com o RNC 2050
e o PNEC 2030.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 52
A reciclagem e desmantelamento de navios que, nos países ocidentais, esteve tradicional-
mente associado a uma imagem de trabalho de pouco valor acrescentado, sem necessidade de
mão-de-obra especializada, pode constituir uma oportunidade para os estaleiros nacionais. Com
o virar do século, o mundo começou a focar-se na forma pouco sustentável como estes resíduos
eram tratados e, em 2009, foi assinada a Convenção de Hong-Kong, no seio da OMI, seguindo-
-se, em 2013, a aprovação de um regulamento comunitário relativo à reciclagem de navios. Neste
contexto, Portugal pode ter um papel significativo através de uma conversão parcial dos seus
estaleiros, contribuindo para que esta atividade se desenrole de forma sustentada, reforçando as-
sim a segurança e a proteção da saúde humana e do ambiente marinho, ao longo de todo o ciclo
de vida de uma embarcação.
Finalmente, os equipamentos logísticos que servem a indústria do comércio marítimo apresentam-
-se como outra área de aposta em termos da reindustrialização. A elevada concentração geográfica
da construção de muitos destes equipamentos, fora do continente europeu, revelou riscos estraté-
gicos e ameaças económicas, que justificam uma aposta industrial nesta área, nomeadamente na
retenção ou conquista de novas competências e de conhecimento, seja na aquisição de capacidade
produtiva em torno de recursos fundamentais (como a produção de contentores ou de recursos de
apoio ao manuseamento de cargas marítimas). Será importante aliar esta aposta de reindustrializa-
ção a programas de inovação tecnológica, nos materiais e processos de produção ou reutilização,
alinhados com as preocupações de sustentabilidade ambiental.
AI11 — Gestão do litoral, obras e infraestruturas
O litoral representa uma parcela muito importante do nosso território que importa preservar e
defender, apostando numa política de gestão integrada sustentável. A zona costeira assume particular
relevância enquanto suporte de um importante conjunto de atividades económicas (pesca comercial,
aquicultura, turismo, recreio costeiro, náutica de recreio e atividade portuária), umas orientadas
para a valorização de recursos do mar, outras retirando, da proximidade ao mar, externalidades
positivas. A orla costeira, enquanto território onde os processos terrestres e marinhos convergem,
apresenta limites naturalmente difusos, com elevada variabilidade espacial e temporal. Não se
esgotando na interface mar-terra, reflete também a interação física que estas duas dimensões
assumem, mesmo a grandes distâncias, seja por ação do clima ou da sismicidade, seja através
das bacias hidrográficas, seja via as atividades que de ambas as margens dependem e, como tal,
a sua gestão e desenvolvimento devem ser efetuados tendo em conta as quatro vertentes mar,
terra, património cultural e ambiente. Neste sentido, é determinante assegurar-se a continuidade
da articulação entre os instrumentos de ordenamento do espaço marítimo com as políticas de
ordenamento do território e os respetivos regimes jurídicos.
Em 2017 foi elaborado o Plano de Ação Litoral XXI, instrumento de referência para uma gestão
ativa da zona costeira, refletindo as grandes linhas de política e as opções estratégicas para o litoral
e identificando e priorizando o vasto conjunto de intervenções físicas a desenvolver pelas múltiplas
entidades com competências no litoral no período de vigência da Estratégia Nacional para a Gestão
Integrada da Zona Costeira. Estas intervenções incidem na prevenção do risco e na salvaguarda
de pessoas e bens, na proteção e valorização do património natural, no desenvolvimento susten-
tável das atividades económicas e na articulação com a gestão dos recursos hídricos interiores
que acautela a reposição progressiva dos ciclos sedimentares. Tendo presente os objetivos e o
horizonte de 20 anos consagrados na Estratégia de Gestão Integrada na Zona Costeira Nacional,
a elaboração do referido Plano de Ação teve como base o conjunto de intervenções a realizar no
litoral, previstas nos programas de execução dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira em
vigor e nos novos Programas de Orla Costeira, assim como outras iniciativas de âmbito nacional,
designadamente as prosseguidas pelas Sociedades Polis Litoral e aquelas que se prendem com o
incremento do conhecimento e monitorização da zona costeira, como é o caso do Programa Global
de Monitorização Sistemática da Zona Costeira de Portugal Continental (COSMO) e do Sistema
de Administração do Recurso Litoral (SIARL), entre outros.
A integração de uma visão holística mar-terra na gestão do litoral e da orla costeira, mas
também de todas as infraestruturas que deles fazem ou poderão fazer parte no futuro, deverá ser
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 53
o fio condutor da próxima década. A vulnerabilidade das zonas costeiras ao aumento do nível do
mar, aos eventos meteorológicos extremos, aos eventos tsunamigénicos e a consequente erosão
costeira releva o crescente papel do mar na alteração da geografia destas zonas e na conceção de
soluções inovadoras para a nova engenharia natural de adaptação a estas variantes. A utilização
de novos biomateriais e soluções de engenharia de inspiração marinha, bem como a preservação
dos ecossistemas costeiros representam oportunidades únicas no fomento da resiliência costeira.
A promoção de atividades económicas circulares que promovam a descarbonização na orla costeira
e o fomento de uma nova era industrial azul de base altamente tecnológica e digital, e de infraestru-
turas modernas de proteção, acesso e usufruto do mar deverão ser apostas seguras de Portugal,
enquanto nação marítima e um exemplo de preservação e resiliência da orla marítima.
AI12 — Recursos não-vivos
O conhecimento sobre a distribuição e aproveitamento dos recursos não-vivos do oceano
tem um interesse estratégico que transcende o valor económico que os mesmos poderão ter. Por
um lado, estimula o desenvolvimento de tecnologias com aplicações noutros setores da economia
azul. Por outro, disponibiliza recursos tão diversos como água, areias, sal, hidrogénio ou metais,
que terão potencialmente um papel fulcral no cumprimento de vários dos objetivos de desenvolvi-
mento sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas e das metas fundamentais desta estratégia.
Importa referir, contudo, que os desafios tecnológicos são ainda significativos em alguns destes
domínios, tanto no que respeita à viabilidade económica como, em especial, no que respeita ao
impacto ambiental associado à exploração destes recursos.
A exploração de minerais marinhos é vista com legítima preocupação por parte de vários setores
da sociedade. Tal preocupação deriva, tipicamente, dos impactos ambientais e patrimoniais que
possam resultar dos processos de extração desses recursos a partir do fundo marinho. No entanto,
estes recursos incorporam metais (nomeadamente alguns com aplicações em alta-tecnologia) que
poderão assumir um papel de relevo na ação focada na descarbonização da economia. A estraté-
gia expressa no Pacto Ecológico Europeu, apresentado pela Comissão Europeia, considera que
um dos pré-requisitos para realizar a transição energética reside no acesso a matérias-primas
sustentáveis, em especial as que são necessárias para o desenvolvimento de tecnologias limpas,
aplicações digitais, espaciais e de defesa, diversificando o fornecimento entre fontes primárias e
secundárias. A visão de Portugal está alinhada com esta estratégia europeia e com o desenvolvi-
mento da economia azul como um dos pilares da descarbonização e promoção das energias de
fontes renováveis e autonomia energética.
A fisiografia do fundo marinho sob jurisdição portuguesa apresenta uma enorme variedade,
que resulta do intervalo de profundidades que abrange desde a margem continental passiva até
à dorsal médio-Atlântica, com atividade vulcânica permanente. Os recursos não vivos associados
a estes diferentes contextos encontram-se ainda por caracterizar em detalhe, tanto no que diz
respeito aos depósitos de areias e agregados existentes na plataforma continental geológica e
nas plataformas insulares assim como aos recursos minerais metálicos existentes nos domínios
mais profundos. A exploração de areias e agregados constituem a base de uma atividade econó-
mica de relevo ligada ao «Crescimento Azul» em vários países da UE, ao contrário da exploração
de recursos metálicos do mar profundo, que aguarda ainda para se tornar realidade. Para além
do desafio tecnológico envolvido na exploração de recursos situados a centenas ou milhares de
metros de profundidade, o maior travão à materialização destes projetos está relacionado com a
necessidade de melhor compreender e caracterizar os diferentes ecossistemas e os serviços que
estes prestam com claros benefícios para a humanidade, assim como os métodos e tecnologia de
extração e seus efeitos secundários através da distribuição de plumas de sedimentos e/ou metais
potencialmente tóxicos e emissão de ruído. Os impactos no caso da mineração do fundo marinho
não se circunscrevem ao local da extração, dada a natureza tridimensional da coluna de água e a
complexa estrutura de circulação das massas de água com densidade suficiente para transportar
e redistribuir noutros locais as plumas de sedimentos geradas.
Os recursos minerais existentes no fundo marinho sob jurisdição nacional encontram-se no
menor grau de conhecimento geológico. Assim, é estratégico para o País avaliar o potencial dos
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 54
seus recursos, bem como a distribuição espacial de eventuais reservas, promovendo e apoiando
a tomada de decisão informada. O avanço neste domínio encontra-se alinhado com o objetivo
estratégico de estimular o conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico e inovação azul.
Este investimento em ciência é também crucial para a criação de zonas piloto e para o apoio ao
ordenamento e gestão do espaço marítimo nacional, minimizando potenciais conflitos e compati-
bilizando a utilização sustentável de recursos marinhos.
Uma das principais preocupações da humanidade é a disponibilidade de água em quantidade
e qualidade adequadas, aspeto que se prevê ainda mais premente no futuro com as alterações
climáticas. A dessalinização permite produzir água segura, microbiologicamente (bactérias e vírus)
e quimicamente (matéria orgânica, poluentes químicos, contaminantes de interesse emergente).
Já existe tecnologia modular, compacta e de fácil controlo remoto, que é adequada para sistemas
centralizados (instalações de maior capacidade, menores custos unitários) e descentralizados
(instalações de baixa capacidade, maiores custos unitários), incluindo hotéis e outros empreendi-
mentos, bem como para abastecimento de navios.
A dessalinização de água do mar por osmose inversa é um processo energeticamente intenso,
mas a sua sustentabilidade ambiental aumenta com o uso de fontes de energia renovável. O desen-
volvimento de sistemas com baixo consumo de energia e de baixa emissão de carbono é referido
como sendo o futuro da dessalinização de água do mar e, a nível nacional, temos conhecimento,
capacidade científica e tecnológica para inovar, demonstrar e escalar novas soluções de tratamento
com osmose inversa ou outro tipo de membranas. Em Portugal já ocorrem operações deste tipo de
sistemas, nomeadamente na Região Autónoma da Madeira, onde a Central de Dessalinização do
Porto Santo está em funcionamento há mais de 40 anos e é a única origem de água potável para
abastecimento público na ilha.
AI13 — Segurança, defesa e vigilância marítima
O mar representa um dos mais importantes ativos estratégicos do País, por razões tão diversas
como a sua relevância para a sustentabilidade ambiental, o crescimento da economia nacional,
incluindo a geração de emprego, o bem-estar dos cidadãos e a afirmação internacional de Portugal
enquanto nação marítima relevante e responsável. São, também, estes os motivos que justificam
a prioridade estratégica que Portugal deve atribuir à segurança marítima — nas suas dimensões
ambiental, económica, social e geopolítica — pois trata-se de uma condição essencial para pro-
mover a qualidade do ambiente, a sustentabilidade económica e a segurança humana, bem como
para garantir os direitos soberanos que lhe são conferidos pela CNUDM, contribuindo, simultanea-
mente, para a governação internacional do oceano. De facto, existe uma influência mútua entre a
segurança marítima e as outras áreas de intervenção anteriormente expostas, uma vez que este
setor impulsiona, diretamente, a ciência e a inovação, a robótica e as tecnologias digitais, os es-
taleiros, a construção e a reparação naval, todos eles setores críticos para o desenvolvimento de
sistemas de vigilância marítima, de meios navais e de sistemas de informação e comunicações
utilizados nas atividades operacionais de segurança marítima. Para além disso, a segurança ma-
rítima proporciona as condições necessárias para o sucesso das restantes áreas de intervenção
associadas à cultura, à classificação de áreas marinhas protegidas, ao fomento da biotecnologia
azul, à sustentabilidade das pescas e de outras atividades de exploração de recursos marinhos, à
monitorização ambiental e proteção da saúde humana, ao aproveitamento energético e à promoção
do turismo costeiro e náutico.
Em termos holísticos, a segurança marítima pode ser entendida como um estado desejado
no domínio marítimo global, no qual as disputas marítimas são resolvidas por meios pacíficos, o
direito internacional e a legislação nacional são respeitados e aplicados, a liberdade de navegação
é garantida e os cidadãos, as infraestruturas, o transporte, o ambiente e os recursos marinhos são
protegidos.
Face à inquestionável interdependência entre desenvolvimento e segurança, importa considerar
uma resposta estratégica de Portugal aos riscos e às ameaças de segurança marítima que ponham
em causa os objetivos de desenvolvimento nacional e de bem-estar dos portugueses. Para isso,
torna-se imperativo formular e operacionalizar uma Estratégia Nacional de Segurança Marítima,
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 55
devidamente articulada com a presente ENM 2021-2030, que tenha ainda em consideração outros
documentos estruturantes, como o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, a Base Tecnológica e
Industrial da Defesa, a Estratégia de Segurança Marítima da UE e a Estratégia Marítima da OTAN,
entre outros.
As sinergias resultantes da articulação entre a futura Estratégia Nacional de Segurança Marítima
e a ENM 2021-2030 constituem um fator fundamental para a consecução dos objetivos nacionais
no domínio marítimo, favorecendo o conhecimento situacional, a articulação interagências e a
cooperação internacional. Com efeito, para que Portugal consiga garantir a salvaguarda da vida
humana na vasta área marítima sob sua responsabilidade, bem como o exercício da autoridade do
Estado e o controlo dos espaços marítimos sob soberania ou jurisdição nacional, é imprescindível
incrementar o conhecimento situacional marítimo, através de uma maior integração e fusão da
informação proveniente de diferentes entidades. Esse conhecimento situacional acrescido permitirá
melhorar a identificação de comportamentos anómalos e a antecipação de riscos e ameaças, maxi-
mizando, assim, a eficiência e a eficácia da ação no mar, tendo presente que os meios disponíveis
são sempre escassos face à imensidão do espaço marítimo nacional.
Por outro lado, reconhecendo a extensa rede de entidades com competências para o exercício
da autoridade do Estado no mar, a que acrescem as pertencentes a organizações internacionais
de que Portugal faz parte, é importante reforçar a ação concertada dos instrumentos relevantes
do Estado (civis e militares), do setor privado e de parceiros internacionais, para fazer face aos
desafios globais de segurança nos espaços marítimos sob soberania ou jurisdição nacional, ou
noutras áreas de insegurança marítima que afetem os interesses estratégicos nacionais. A Comissão
Interministerial para os Assuntos do Mar (CIAM) deve garantir a desejada articulação interagências,
a nível nacional, e deve promover um reforço do papel do Centro Nacional Coordenador Marítimo
(CNCM), do Centro Nacional de Coordenação (CNC) do EUROSUR e do Centro de Operações
Marítimas (COMAR).
A ENM 2021-2030 está alinhada com a Estratégia de Segurança Marítima da UE e o seu Plano
de Ação e com a Estratégia de Segurança Interna da UE (2019-2024), priorizando a capacidade
de resposta e reação rápida no mar, a atitude proativa de desenvolver novas tecnologias, a inte-
gração de um sistema europeu de vigilância e um multilateralismo operativo, este último também
protagonizado pelo Programa da Agência Europeia de Fronteiras e Guarda Costeira (2020-2022)
e pela Estratégia da Agência Europeia de Segurança Marítima (2020-2024). A fim de fazer face às
questões migratórias por via marítima, deve assegurar-se, igualmente, o alinhamento com a Estra-
tégia Nacional de Gestão Integrada de Fronteiras (2020-2023) e o seu Plano de Ação (2020-2023).
Por fim, realça-se a natureza eminentemente internacional da segurança marítima, motivada
tanto pela inexistência de direitos plenos de soberania dos Estados-costeiros nas suas áreas
marítimas sob sua jurisdição — o que tem conduzido ao estabelecimento de múltiplos acordos
internacionais — como pela crescente intervenção das organizações internacionais neste domínio
da segurança. Assim, para que Portugal se afirme internacionalmente como líder na governação do
oceano e como coprodutor de segurança marítima global, é fundamental garantir uma ação coorde-
nada dos vários intervenientes políticos, diplomáticos, militares e das forças e serviços de segurança,
nos diversos fóruns internacionais deste âmbito, bem como participar, em cooperação com outros
Estados, em atividades cooperativas de segurança marítima que contribuam para salvaguardar os
interesses nacionais. Neste contexto, assume primordial importância a operacionalização do Cen-
tro do Atlântico, o qual, para além de preconizar o desenvolvimento de capacidades associadas à
segurança no espaço atlântico, com foco no domínio marítimo, visa promover a cooperação com
e entre diferentes organizações internacionais, tais como a ONU, a UE, a CPLP, a União Africana,
bem como a comunidade em geral.
6 — Metas e implementação
A ENM 2021-2030 preconiza uma visão de longo prazo que se consubstancia na definição de
medidas objetivas para todas as áreas de intervenção prioritárias, agregadas num plano de ação,
que será periodicamente atualizado, para se cumprirem os objetivos estratégicos definidos para a
década. Para se avaliar com rigor a implementação e o impacto desta estratégia, e reconhecer os
seus sucessos e insuficiências, é necessário estabelecer um plano de controlo e monitorização da
mesma e definir metas, concretas e quantificadas, complementares entre si. As metas estabelecidas
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 56
neste capítulo, enumeradas na tabela seguinte, estão alinhadas com os 10 objetivos estratégicos
da ENM 2021-2030 e são um dos principais instrumentos para a sua monitorização e avaliação,
cuja metodologia é descrita no capítulo seguinte. Todas as metas são estabelecidas para o ano de
2030, e têm como ano de base 2020 ou o ano anterior mais próximo para o qual existam dados
disponíveis.
TABELA 2
Metas da ENM 2021-2030 organizadas por objetivo estratégico
Objetivo estratégico Metas para 2030
OE1 Combater as alterações climáticas e a polui- Assegurar que 100 % do espaço marítimo sob soberania e/ou jurisdição
ção e proteger e restaurar os ecossistemas. nacional seja avaliado em Bom estado ambiental.
Classificar 30 % das áreas marinhas nacionais até 2030, aprovando
os respetivos planos de gestão e conservação, e assegurar que um
terço destas áreas é estritamente protegido.
Garantir que 100 % das embalagens de plástico colocadas no mercado
nacional são reutilizáveis ou recicláveis.
OE2 Fomentar o emprego e a economia azul Garantir que 100 % dos portos comerciais, de pesca e marinas apre-
circular e sustentável. sentem sistemas de gestão ambiental (das águas, águas residuais,
resíduos e energia).
Aumentar em 30 % o emprego na economia azul nacional até 2030.
Garantir uma remuneração média na economia do mar 8 % acima da
média nacional.
Aumentar o valor acrescentado bruto (VAB) da economia do mar em
30 % até 2030.
Aumentar o contributo da economia do mar para 7 % do VAB da eco-
nomia nacional.
Duplicar o número de instrumentos de financiamento dedicado a projetos
de economia azul (incluindo, por exemplo, financiamento sustentável,
crowdfunding, capital de risco).
OE3 Descarbonizar a economia e promover as Atingir, pelo menos, 370 MW de capacidade instalada para geração de
energias renováveis e autonomia energética. energia a partir de fontes renováveis oceânicas.
Assegurar uma redução de 17 % nas emissões de gases com efeito de
estufa das atividades da economia do mar, face a 2005, em linha com
o compromisso de Portugal no quadro do Regulamento Partilha de
Esforços para 2030, para os setores não abrangidos pelo Comércio
Europeu de Licenças de Emissão.
OE4 Apostar na garantia da sustentabilidade e Aumentar a produção aquícola nacional para 25 mil toneladas por
segurança alimentar. ano.
Aumentar para 7 % o contributo das exportações dos produtos do mar
para as exportações totais nacionais.
Manter 100 % das unidades populacionais de gestão pesqueira (stocks)
dentro dos limites biológicos sustentáveis de acordo com os parâme-
tros resultantes da avaliação científica (p. ex. pelo ICES), adequando
os níveis de esforço de pesca a esses limites.
OE5 Facilitar o acesso à água potável. . . . . . . . Duplicar o número de unidades de dessalinização para o fornecimento
de água a nível nacional.
OE6 Promover a saúde e bem-estar . . . . . . . . . Aumentar o número de projetos de turismo de saúde e bem-estar
associado às propriedades terapêuticas do mar.
Duplicar o número de participantes em atividades desportivas náuticas.
OE7 Estimular o conhecimento científico, desen- Duplicar o número de startups na economia azul bem como o número
volvimento tecnológico e inovação azul. de projetos inovadores azuis financiados pelos programas opera-
cionais.
Aumentar em 50 % o número de mestres e doutores nas áreas cientí-
ficas ligadas ao oceano.
Aumentar em 60 % o número de infraestruturas ligadas ao mar no
Roteiro Nacional de Infraestruturas de Investigação de Interesse
Estratégico (RNIE).
Aumentar em 30 % o número de dias de mar dos navios oceânicos de
investigação.
Duplicar o número de pedidos de direitos de propriedade industrial
(patentes, marcas e design), com origem nacional em tecnologias
oceânicas e relacionadas (tecnologia, industrial, capacitação).
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 57
Objetivo estratégico Metas para 2030
OE8 Incrementar a educação, formação, a cultura Aumentar o financiamento europeu relativo a formação profissional
e literacia do oceano. na economia do mar, promovendo a participação de raparigas e de
mulheres.
Duplicar o número de trabalhadores nas atividades ligadas ao mar com
ensino pós-secundário obtido através de qualificações de nível 5
do QNQ no âmbito do Sistema Nacional de Qualificações (SNQ),
desenvolvidas por entidades formadoras no âmbito do SNQ, bem
como cursos do ensino superior de nível 6, 7 e 8 do QNQ e, ainda,
cursos técnicos superiores profissionais (CTeSP), também desenvolvi-
dos em instituições de nível superior mas, atualmente, sem atribuição
de grau ou nível de qualificação.
Duplicar o número de jovens e adultos formados com qualificações
de dupla certificação nos setores e atividades relacionados com a
economia do mar.
Assegurar que 20 % dos Clubes Ciência Viva na Escola integra nos
seus planos de atividade a exploração da temática mar.
Assegurar o aumento de 10 % no número de Centros de Formação
Desportiva do Desporto Escolar (Atividades Náuticas) e no número
de Grupos-Equipa do Desporto Escolar nas modalidades náuticas
(canoagem, surfing, vela e remo).
Aumentar o financiamento da inventariação, monitorização e recupera-
ção do património costeiro integrado em paisagens culturais.
Aumentar 20 % o número de imóveis de património cultural náutico e
subaquático classificados.
OE9 Incentivar a reindustrialização e capacidade Aumentar 20 % o valor da produção industrial dos setores emergentes
produtiva e digitalizar o oceano. da economia do mar.
Aumentar em 20 % os apoios financeiros à inovação, transferência
de tecnologia e diversificação de modelos de produção dos setores
tradicionais da economia do mar.
OE10 Garantir a segurança, soberania, coopera- Assegurar a adoção, pelas Nações Unidas, do acordo global para a
ção e governação. conservação e uso sustentável da biodiversidade marinha em áreas
para além da jurisdição nacional.
Concluir o processo de extensão da plataforma continental portu-
guesa.
Operacionalizar plenamente o ordenamento e a gestão do espaço
marítimo nacional.
7 — Monitorização e avaliação
A ENM 2021-2030 e o respetivo plano de ação são objeto de monitorização e avaliação para
garantir a sua implementação de forma eficaz e eficiente e verificar que são alcançadas as metas
propostas. A sua monitorização e avaliação servem de apoio à decisão e exigem a coordenação
entre os agentes públicos e privados envolvidos no modelo de governação da ENM 2021-2030.
Este processo de avaliação garante também a disponibilização de informação de base para a sua
revisão, incluindo no que se refere à alocação de meios e estabelecimento de parcerias estratégi-
cas. Esta abordagem decorre da experiência acumulada no procedimento de acompanhamento e
avaliação das estratégias anteriores.
A monitorização e avaliação da ENM 2021-2030 são instrumentos de transparência e pres-
tação de contas à sociedade, num quadro que se quer moderno, flexível e colaborativo, baseado
em sistemas de dados abertos e reutilização de dados públicos, no âmbito do preconizado pela
Estratégia para a Inovação e Modernização do Estado e da Administração Pública 2020-2023.
Na era da digitalização, a partilha de dados, a interoperabilidade de sistemas e os serviços web são
já hoje uma realidade, devendo a monitorização da ENM 2021-2030 acompanhar as tendências
a este nível.
Sendo a ENM 2021-2030 o principal instrumento de política marítima integrada nacional, a
sua monitorização deve permitir sobretudo leituras integradas, rompendo com lógicas setoriais
e de contexto apenas nacional. Assim, deve garantir o acompanhamento de impactos ou efeitos
cumulativos, de leituras que cruzem diferentes dimensões, e desagregações territoriais devidamente
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 58
compatibilizadas, sendo de realçar a divisão em NUT I e NUT II e por municípios. Esta última é
particularmente relevante no quadro do processo de descentralização em curso, que estabelece
a transferência de competências para as autarquias locais, no que releva para esta Estratégia,
quanto a áreas portuário-marítimas e praias. A articulação dos diferentes agentes para garantia de
uma resposta coordenada e atempada a nível internacional e a integração com as comunidades
de dados e monitorização na área do mar deve ser central na monitorização da ENM 2021-2030.
A monitorização da ENM 2021-2030 deve garantir não só a informação de suporte à CIAM mas
contribuir também para o aumento da literacia e comunicação estratégica na área do mar, no que se
refere à sociedade em geral. Deve, igualmente, garantir a informação coordenada e compatibilizada
necessária a outros processos, designadamente contributos de Portugal para a implementação da
Diretiva-Quadro «Estratégia Marinha» (DQEM), para a Agência Europeia do Ambiente e Convenção
OSPAR, para o Processo Regular das Nações Unidas, na componente socioeconómica da utilização
das águas marinhas, para a Comissão Europeia no que se refere ao contributo de Portugal para o
«Crescimento Azul» e para a OCDE. Deverá, ainda, garantir a informação necessária à avaliação
do estado de implementação do ordenamento do espaço marítimo nacional e à monitorização de
impacto e resultados, na área do mar, do Portugal 2020 e do Portugal 2030. A monitorização do
Objetivo 14 da Agenda 2030 em Portugal e da Convenção da UNESCO de 2001 sobre a Proteção
do Património Cultural Subaquático deve, igualmente, ser tida em consideração.
A monitorização assenta no programa SEAMInd — Indicadores e Monitorização Económica,
Social e Ambiental, o qual consta de uma rede colaborativa, coordenada pela DGPM, com o objetivo
de identificar um conjunto restrito de indicadores relevantes para aferir os resultados da política
do mar. Estes indicadores permitirão aferir se os resultados alcançados estão alinhados com os
objetivos e metas estabelecidos na ENM 2021-2030.
A rede colaborativa do SEAMInd integra as entidades públicas (incluindo municípios) que dis-
ponibilizam, ou podem vir a disponibilizar, indicadores relacionados com os assuntos do mar (lado
da oferta), e deverá ser estabelecida mediante protocolo de colaboração institucional entre estas
entidades e a DGPM. O SEAMInd tem um âmbito nacional e as regiões autónomas fazem parte
da sua rede colaborativa (oferta e procura), articulando-se a DGPM com as entidades regionais
responsáveis pelos assuntos do mar.
Os objetivos estratégicos, considerados neste contexto como de longo prazo, são aferidos
por indicadores de impacto. Cada meta indicada é aferida, pelo menos, por um indicador de ordem
económica, social ou ambiental. A este nível são considerados, a título de exemplo, indicadores
como o valor acrescentado bruto da economia do mar, a percentagem de área marinha avaliada
em Bom estado ambiental, o número de dias de mar de navios oceânicos de investigação e o
número de participantes em atividades desportivas náuticas. Os objetivos das áreas de interven-
ção, considerados de médio prazo, são aferidos por indicadores de resultado. Os indicadores a
serem adotados devem considerar a harmonização com outros sistemas de indicadores definidos
para acompanhamento de outras políticas relevantes na articulação com esta estratégia. O plano
de ação, integrando projetos, ações, programas e estratégias setoriais, é monitorizado através da
identificação de ações emblemáticas e/ou estruturantes, de indicadores de resultados, produtos
relevantes e indicadores financeiros, bem como do respetivo estado de implementação. Os proje-
tos de natureza privada incluídos no plano de ação, de forma individualizada, por serem projetos
identificados como estruturantes em face dos objetivos da ENM 2021-2030 e/ou por carecerem na
sua implementação de uma ação articulada de múltiplas entidades públicas, serão monitorizados
tendo ainda em atenção o estado da interação com as entidades públicas. No modelo de gover-
nação do Portugal 2020 e do futuro Portugal 2030, a DGPM, enquanto entidade responsável por
garantir a monitorização da ENM 2021-2030, assegura a monitorização da implementação dos
fundos europeus de gestão partilhada para o conjunto de projetos na área do mar, em articulação
com os Programas Operacionais. A listagem de indicadores deve ser estável, mas objeto de aper-
feiçoamento, sendo disponibilizada anualmente no sítio eletrónico da DGPM, com as atualizações
que forem sendo desenvolvidas e acordadas na rede colaborativa do SEAMInd, que é entendida
como um mecanismo de articulação funcional no contexto da ENM 2021-2030.
A análise de longo prazo, de natureza estrutural, deve ser efetuada com base nas Contas
Nacionais, designadamente na Conta Satélite do Mar, produzida pelo INE, a divulgar com periodi-
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 59
cidade mínima de três anos. O INE e a DGPM garantem a articulação e os trabalhos necessários
para a continuação e melhoria da Conta Satélite do Mar e avaliarão a viabilidade de robustecer a
análise da economia do mar, no quadro das Contas Nacionais. Neste quadro, deve ponderar-se o
desenvolvimento de Contas Experimentais do Ambiente e dos Serviços dos Ecossistemas (mari-
nhos), contando para este efeito com a rede colaborativa do SEAMInd.
A monitorização assentará, preferencialmente, em microdados já recolhidos pela Administração
Pública ao nível de dados estatísticos, administrativos ou científicos, sendo de salientar a impor-
tância da estreita colaboração com o INE e com a DGRM. Deve-se garantir a interoperabilidade
com sistemas já existentes, nomeadamente com o SNIMAR, a Janela Única Logística e outros que
sejam identificados como relevantes. No que se refere a dados ambientais, a monitorização deve
garantir a coordenação com o IPMA, I. P., e o Instituto Hidrográfico (IH), enquanto Laboratórios
de Estado, e com entidades com dados equivalentes nas regiões autónomas e com a Autoridade
Marítima Nacional (AMN) no âmbito da poluição do meio marinho.
A DGPM deve garantir a disponibilização na sua página eletrónica de uma matriz que identi-
fique a articulação entre a monitorização da ENM 2021-2030, da utilização das águas marinhas,
ao nível da DQEM, e do estado de implementação do ordenamento do espaço marítimo, com os
agrupamentos da Conta Satélite do Mar e os domínios de monitorização do SEAMInd, em arti-
culação com a DGRM. A monitorização inclui a elaboração e publicação pela DGPM de um relatório
anual com a caracterização do estado de implementação da ENM 2021-2030, baseada nas metas
e indicadores e na implementação do respetivo plano de ação.
8 — Modelo de governação, coordenação e mobilização de recursos
O oceano tem uma dimensão global e os desafios que enfrenta não têm fronteiras, apelando
a uma forte articulação internacional, nacional, regional e local. A economia do mar afigura-se
promissora, mas devemos garantir um crescimento sustentável que considere o valor do capital
natural e dos serviços dos ecossistemas marinhos e a salvaguarda do património cultural. O sistema
mar-atmosfera e a sua monitorização, bem como a articulação entre o ordenamento do espaço
marítimo e a gestão da zona costeira, são matérias cruciais para a governação do mar.
No plano internacional, a articulação ao nível das Nações Unidas com uma presença portuguesa
forte e coordenada nos diversos fóruns é determinante, sendo centrais os processos decorrentes
da CNUDM, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, juntamente com a Década das
Nações Unidas para a Recuperação dos Ecossistemas, a Década das Nações Unidas das Ciências
do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável 2021-2030 e o Processo Regular de Avaliação
Global do Estado do Ambiente Marinho, incluindo aspetos socioeconómicos. A este título, será
assegurada a participação ativa nos principais órgãos das convenções e organismos de que Portugal
é parte, nomeadamente nos processos associados às Nações Unidas na área do Mar, Organização
Marítima Internacional, Comissão de Limites da Plataforma Continental, Autoridade Internacional
dos Fundos Marinhos, Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO.
A cooperação ao nível da CPLP nos assuntos do mar é parte integrante da estratégia portuguesa
de cooperação. É fundamental também garantir a articulação ao nível da Convenção OSPAR tendo
em vista assegurar, designadamente, a cooperação regional prevista na Diretiva-Quadro «Estra-
tégia Marinha», enquanto pilar ambiental da Política Marítima Integrada da UE (PMI), e assegurar
sinergias com as Diretivas Aves e Habitats e com a Diretiva-Quadro da Água, designadamente no
cumprimento dos objetivos da Estratégia de Biodiversidade da União Europeia para 2030. A parti-
cipação ativa, estratégica e mobilizadora de Portugal ao nível da PMI é determinante, quer para a
afirmação de uma Europa mais marítima, quer para a continuação da mobilização nacional para o
mar, de forma participada, focada e articulada entre agentes públicos e privados. A UE tem ainda
apostado na cooperação em I&I transatlântica, primeiro com a Declaração de Galway, assinada
com o Canadá e os Estados Unidos da América, e com a Declaração de Belém, assinada com o
Brasil e a África do Sul, devendo Portugal continuar a ter um papel ativo neste âmbito.
As Regiões Autónomas dos Açores e Madeira, com as suas competências próprias e parti-
lhadas, têm um papel determinante no modelo de governação da ENM 2021-2030, havendo ainda
a considerar a articulação com a dimensão marítima da estratégia da UE para as regiões ultrape-
riféricas.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 60
No plano nacional, é fundamental garantir que a territorialização da política do mar se efe-
tue de forma articulada com as regiões autónomas, e em alinhamento com a ENM 2021-2030 e
com os instrumentos de ordenamento do espaço marítimo e do ordenamento do território. Esta
estratégia deve garantir a coordenação e articulação horizontal, ou intersetorial, e a coordenação
vertical, nomeadamente os mecanismos de territorialização da política do mar e a sua articulação
no plano internacional. A consulta, o acompanhamento e a participação dos agentes interessados
nos assuntos do mar são assegurados garantindo uma governação top-down e bottom-up funcional
e complementar e uma cooperação estreita num modelo flexível, dinâmico e operacional.
O modelo de governação da ENM 2021-2030 inclui uma coordenação política e uma coor-
denação técnica. A coordenação política é assegurada pela CIAM, que é a estrutura de reflexão,
coordenação e decisão estratégica sobre o mar, presidida pelo Primeiro-Ministro. A CIAM é apoiada
por uma rede de pontos focais, designados pelos membros do Governo e dos Governos Regionais
que a constituem. A coordenação técnica é responsabilidade da DGPM, que assegura o apoio
logístico, administrativo e técnico necessário ao bom funcionamento da CIAM, competindo-lhe,
nomeadamente, secretariar as reuniões da CIAM e coordenar a já referida rede de pontos focais.
A DGPM assegura uma articulação funcional entre agentes privados e públicos, que apoia a
implementação, monitorização, avaliação e revisão da ENM 2021-2030. Esta articulação deve criar
um ambiente colaborativo e transparente na implementação da ENM 2021-2030, uma articulação
horizontal e vertical, incluindo a dimensão internacional. Estes mecanismos de articulação podem
ser instituídos mediante protocolos de cooperação entre entidades públicas e privadas, a título
permanente ou temporário para ações específicas. A territorialização da ENM 2021-2030, através
das estratégias de especialização inteligente de âmbito nacional e regional, deverá ser garantida
através de uma dedicada articulação funcional.
Figura 1 — Modelo de governação da ENM 2021-2030
O instrumento de investimento territorial integrado relativo ao mar (ITI Mar), instituído no
âmbito dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEEI) e do modelo de governação do
Portugal 2020, com exceção do Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural, contribuiu para
a operacionalização da Estratégia Nacional para o Mar 2013-2020 (ENM 2013-2020) no contexto
do Portugal 2020.
O quadro estratégico sub-regional de aplicação da ENM 2013-2020, no âmbito dos FEEI, foi
assegurado pela implementação da componente mar das estratégias integradas de desenvolvi-
mento territorial, estabelecidas ao nível das comunidades intermunicipais (CIM) e das áreas metro-
politanas (AM). As CIM e as AM que consideraram significativa a componente mar nas respetivas
estratégias integradas de desenvolvimento territorial puderam solicitar o reconhecimento desta
componente no contexto e para os efeitos da ENM 2013-2020. Este reconhecimento foi assegurado
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 61
mediante a celebração de protocolos de colaboração entre a DGPM, as comissões de coordenação
e desenvolvimento regional (CCDR) e as CIM (ou as AM), com vista a articular a implementação
a nível sub-regional, nomeadamente ao nível da Nomenclatura de Unidades Territoriais para Fins
Estatísticos (NUT III), das políticas para o mar.
O ITI Mar, no contexto do futuro quadro financeiro plurianual, contribuirá para a operacionali-
zação da ENM 2021-2030, incluindo no respetivo quadro de referência as áreas de intervenção de
âmbito prioritariamente nacional ou regional.
Figura 2 — Acompanhamento da ENM 2021-2030
Para assegurar o sucesso na implementação da ENM 2021-2030 será necessário mobilizar
meios financeiros, humanos, físicos, infraestruturas e de informação, matéria central na coordenação
ao nível da CIAM, apoiada pela articulação funcional entre agentes privados e públicos.
A implementação da ENM 2021-2030 utilizará os recursos financeiros disponíveis e o seu
sucesso dependerá, em grande medida, do trabalho realizado pela Comissão de Implementação
do ITI Mar, prevista no Portugal 2020, complementada por trabalho equivalente e de articulação
funcional da ENM 2021-2030, designadamente na articulação ao nível das estratégias de especia-
lização inteligente e dos financiadores na área do mar, e da futura articulação ao nível do Portugal
2030. Ficam, desta forma, asseguradas as condições para uma articulação eficaz e eficiente na
aplicação dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento, em gestão partilhada, dos fundos
nacionais, como o Fundo Azul e o Fundo Ambiental, do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico
Europeu (EEA Grants) e de outros investidores públicos e privados em Portugal com interesses na
área do mar. Complementarmente aos fundos em gestão partilhada, nos quais se incluem também
os programas de cooperação territorial ao nível do INTERREG, essenciais ao aprofundamento
das redes de cooperação na Europa e, em especial, no Atlântico, há a considerar os programas
de gestão centralizada da Comissão Europeia: os programas Horizon Europe, InvestEU, COSME,
Connecting Europe Facility, Erasmus+ e LIFE.
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 62
Tendo em vista a promoção da ação externa da ENM 2021-2030 e do contributo para a imple-
mentação da Agenda 2030 noutras geografias, é determinante considerar as parcerias em projetos
suportados por mecanismos de financiamento da cooperação externa da UE e, também, os bancos
de desenvolvimento dos quais Portugal é parte.
114282693
www.dre.pt
Diário da República, 1.ª série
N.º 108 4 de junho de 2021 Pág. 63
PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS