Autoridade Tributária e Aduaneira — informações vinculativas
Informação vinculativa n.º 26684
- Data
- 2024-08-06
- Meio processual
- INFORMAÇÃO VINCULATIVA
- Tipo
- Convenção para Evitar a Dupla Tributação entre Portugal e Espanha
Sumário
Tributação no termos da CDT Portugal/Espanha de prestadores de serviços individuais e de trabalhadores dependentes, vinculados a um contrato individual de trabalho.
Texto integral (2160 palavras)
INFORMAÇÃO VINCULATIVA
FICHA DOUTRINÁRIA
Diploma: Convenção para Evitar a Dupla Tributação entre Portugal e Espanha
Artigo/Verba: Art.14º - Profissões independentes
Assunto: Tributação no termos da CDT Portugal/Espanha de prestadores de serviços individuais
e de trabalhadores dependentes, vinculados a um contrato individual de trabalho.
Processo: 26684, com despacho de 2024-07-05, do Diretor de Serviços da DSRI, por
subdelegação
Conteúdo: A requerente (pessoa coletiva residente em Portugal), vem nos termos do art.º 68 da Lei
Geral Tributária solicitar uma informação vinculativa, sobre a obrigatoriedade, ou não,
de efetuar retenção na fonte de IRS ou IRC, consoante o caso, aos rendimentos que
coloca à disposição dos seus profissionais - não residentes - que integram o seu corpo
clínico e não clínico.
Estas relações contratuais, podem assumir a forma jurídica de prestadores de serviços
individuais, profissionais liberais, ou trabalhadores dependentes, vinculados a um
contrato individual de trabalho (CIT).
Refira-se ainda que, nos casos em análise, todos eles, têm residência em localidades
de fronteira, estando em condições, sempre que aplicável, no caso dos trabalhadores
dependentes, de avocarem o estatuto de "trabalhadores fronteiriços" previsto no art.º 15
da Convenção para evitar a Dupla Tributação (CDT).
A convenção celebrada por Portugal e Espanha para evitar a dupla tributação foi
assinada a 26 de outubro de 1993, ratificada pelo Decreto do Presidente da República
n.º 14/95 de 28 de janeiro e (fazendo alusão a cada uma das situações em apreço)
dispõe que:
I - Relativamente aos rendimentos obtidos por um médico, profissional liberal, não
residente em Portugal, só podem ser tributados no estado contratante, ou seja, em
Espanha, a não ser que este disponha, de forma habitual, no outro estado contratante
(em Portugal) de uma instalação fixa para o exercício das suas atividades. Se dispuser
de uma instalação fixa os rendimentos podem ser tributados no outro estado (art.º14 da
CDT). Ora, refira-se que normalmente os profissionais em questão, não estando sujeitos
a qualquer clausula de exclusividade, podem prestar serviços em mais do que uma ULS
e utilizarão certamente as instalações destas (diferentes entre si) para a realização das
suas atividades.
Surge-nos a dúvida se nestas condições deverá ser entendido que os médicos
independentes (ou profissionais liberais) dispõem efetivamente de uma "instalação fixa
com caráter de habitualidade" no outro estado contratante. Parece-nos que a realidade
prática se afasta do espirito da lei, pois apesar do artigo em questão não mencionar a
necessidade de qualquer vinculo de posse relativamente a essa instalação, mas deixa
subentender um carácter de habitualidade relativamente a um único espaço fixo no
nosso território, situação que pode não se verificar e que não conseguimos precisar,
pois tratam-se de profissionais independentes. O próprio termo "podem ser tributados
no estado da fonte" deixa também uma margem de dúvida sobre a obrigatoriedade
efetiva de efetuar a retenção na fonte em Portugal, parece-nos que antes sugere essa
possibilidade. Relativamente a este ponto solicitamos o entendimento da Autoridade
Tributária sobre o conceito de "instalação fixa" no âmbito da nossa atividade e no
enquadramento enunciado e se nas condições referidas devemos ou não aplicar
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sempre retenção na fonte aos rendimentos colocados à disposição destes profissionais.
II - Reportando-nos aos profissionais dependentes (art.15 da CDT), parece-nos que é
condição bastante para existir dispensa de retenção na fonte sobre os rendimentos
obtidos em Portugal o profissional não residente assumir a condição de "trabalhador
fronteiriço" (n.º 4 do art.15.º da CDT), ou seja, ter a sua residência habitual no outro
estado contratante (em Espanha) ao qual regressa normalmente todos os dias. Existe
de facto essa convicção apesar desta evidência ser em termos práticos, pelas próprias
características e exigências da atividade, de difícil perceção. Estes profissionais,
assumem períodos de trabalho regulares, existindo um histórico de remunerações que
ultrapassam os 183 dias em qualquer período de 12 meses, as remunerações são
efetivamente pagas por uma entidade patronal residente em Portugal e são suportadas
por um estabelecimento estável situado nesse mesmo território (n.º 2 do art. 15.º da
CDT). Não obstante, pelo exposto na primeira parte deste ponto, concluímos, nestes
casos, pela não sujeição a tributação em sede de IRS. Solicitamos também a vossa
informação sobre a conformidade do nosso procedimento.
Nestes termos, no caso em apreço vem a requerente no seu requerimento solicitar
informação sobre as situações acima descritas, pelo que estamos perante questões
jurídico/ tributária no âmbito da Convenção para evitar a dupla tributação celebrada
entre Portugal e Espanha.
Antes de se proceder ao enquadramento da situação tributária dos trabalhadores
fronteiriços no âmbito da CDT celebrada entre Portugal e Espanha, esclarece-se que já
existe informação vinculativa sobre o assunto em questão.
No que respeita aos rendimentos obtidos por um médico, profissional liberal, não
residente em Portugal, os mesmos enquadram-se no art. 14º da CDT celebrada entre
Portugal e Espanha, devido à natureza dos rendimentos.
Atendendo ao disposto no n.º 1 do Artigo 14º da CDT celebrada entre Portugal e
Espanha "os rendimentos obtidos por um residente de um Estado Contratante pelo
exercício de uma profissão liberal ou de outras actividades independentes de carácter
similar só podem ser tributados nesse Estado, a não ser que esse residente disponha,
de forma habitual, no outro Estado Contratante, de uma instalação fixa para o exercício
das suas actividades. Neste último caso, os rendimentos podem ser tributados no outro
Estado Contratante, mas unicamente na medida em que sejam imputáveis a essa
instalação fixa."
Quer isto dizer que sendo um sujeito passivo residente em Espanha, e não dispunha de
instalações fixas adequada à prossecução da actividade, a competência para tributar os
rendimentos em causa é exclusiva do Estado da residência (no caso concreto
Espanha), a não ser que tivesse à sua disposição um estabelecimento estável situado
em Portugal, nesse caso a competência é cumulativa (Estado da fonte - Portugal e
Estado da residência - Espanha).
Ora, de acordo com o comentário 2 ao nº1 do artº 5º (relativo à definição de
estabelecimento estável) do Modelo de Convenção Fiscal sobre o Rendimento e
Património da OCDE, a expressão "estabelecimento estável" significa uma instalação
fixa através da qual uma empresa exerce toda ou parte da sua atividade, comportando,
por conseguinte, os seguintes critérios:
A existência de uma "instalação", isto é, instalação no sentido de local e, nalguns
casos, de maquinaria e equipamento;
A instalação deve ser "fixa", ou seja, deve ser estabelecida num local determinado, com
um certo grau de permanência.
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O exercício das atividades da empresa através dessa instalação fixa, o que significa,
normalmente, que as pessoas que, de um modo ou de outro, dependem da empresa (o
pessoal) exercem as atividades da empresa no Estado em que está situada a instalação
fixa.
Sendo aqui inequívoca a verificação de todos aqueles critérios, porquanto existe uma
instalação (Hospital/centro saúde), estabelecida num local determinado e com caráter
permanente (o que não pode deixar de se considerar, na medida em que um Hospital
/centro saúde é um imóvel), e o exercício das atividades é efetuado através dessa
instalação fixa (o trabalho é exercido no Hospital/centro saúde).
Note-se que, no tocante ao terceiro critério indicado (o exercício das atividades da
empresa através dessa instalação fixa), e conforme conta no comentário 4.1 ao nº1 do
artº 5º (relativo à definição de estabelecimento estável) do Modelo de Convenção Fiscal
sobre o Rendimento e Património da OCDE, o simples facto de uma empresa ter à sua
disposição um certo espaço usado nas suas atividades económicas é suficiente para
constituir uma instalação fixa, pelo que não é exigido que a empresa detenha um direito
jurídico formal sobre essa instalação.
Para que seja considerado estabelecimento estável, também existe o pressuposto de
atividades Regulares, isto é, a presença e a realização contínua de consultas médicas
no consultório do hospital ou clínica reforçam a possibilidade de que estejamos perante
um estabelecimento estável.
Ou seja, isso significa que a presença do médico no consultório ou clínica devem ser
regulares e não apenas esporádicas.
Assim, dada a existência de um estabelecimento estável/instalação fixa, é aplicável a
segunda parte do nº1 do artº14º da CDT Portugal/Espanha ("Se dispuser dessa
instalação, os rendimentos podem ser tributados no outro Estado (Portugal), mas
unicamente na medida em que forem imputáveis às atividades exercidas por meio de tal
instalação fixa").
O que na prática significa que ambos os Estados (Português e Espanhol) podem tributar
os rendimentos em questão, cabendo a eliminação da dupla tributação ao Estado de
residência do beneficiário do rendimento (Espanha), através da concessão de um
crédito de imposto, nos termos do art. 23º da CDT Portugal/Espanha.
Pelo que, só no caso de estarmos perante consultas esporádicas nos hospitais ou
centros de saúde em Portugal, é que se afasta a tributação em Portugal dos
rendimentos em causa.
Finalmente, quanto à dúvida suscitada relativamente à norma, nomeadamente o
"podem ser" tributados, esclarece-se que tal como consta no modelo de convenção da
OCDE, o texto adotado pelos mais diversos países usa as expressões "podem ser" ou
"só podem ser" para definir as competências de tributação cumulativamente ou
exclusivamente.
Quando o texto da convenção refere "só podem ser" está atribuir competência exclusiva
a um determinado Estado, quando se usa a expressão "podem ser" está atribuir
competência cumulativa a ambos os Estados, que é o que acontece na norma em
questão.
Relativamente aos profissionais dependentes (art.15 da CDT), tal como anteriormente
sancionado : "1. O artigo 15º do Decreto-Lei nº 233/2005, de 29 de Dezembro, previu
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um regime transitório para os médicos que se encontravam a exercer a sua atividade
profissional nos hospitais convertidos em E.P.E. segundo o regime jurídico da função
pública, de acordo com o qual poderiam optar por se manter nesse regime, sendo-lhes
garantido o acesso na carreira. 2. Pese embora esse regime jurídico aplicável a tais
trabalhadores, as remunerações pagas a estes médicos não se consideram
remunerações públicas para efeitos de determinação das competências tributárias por
aplicação da CDT Espanha, uma vez que a entidade devedora das mesmas não faz
parte da estrutura administrativa do Estado português, mas da sua estrutura
empresarial.
3. Como tal, essas remunerações enquadram-se no artigo 15º da referida convenção e
não no artigo 19º.
4. Razão pela qual se aplica aos médicos dos E.P.E. sujeitos ao regime jurídico da
função pública o regime dos trabalhadores fronteiriços previsto no nº 4 do artigo 15º da
CDT Espanha, desde que verificados os pressupostos desse regime, ou seja, que
residam do outro lado da fronteira e que lá regressem normalmente todos os dias.
5 A competência tributária relativamente a estas remunerações é exclusiva do Estado
Espanhol.
6Estas remunerações serão incluídas na declaração prevista na alínea a) do nº 7 do
artigo 119º do CIRS identificadas com o código 15 da Tabela II anexa às instruções de
preenchimento da Declaração Modelo 30."
Deste modo, observa-se que mesmo que os trabalhadores em causa tivessem optado
pelo regime jurídico da função pública, às remunerações em causa aplicar-se-á o art.
15º e não o art. 19º da CDT celebrada ente Portugal e Espanha;
Uma vez que para efeitos de determinação das competências tributárias por aplicação
da CDT Espanha, a entidade devedora das mesmas não faz parte da estrutura
administrativa do Estado português, mas sim da sua estrutura empresarial.
E, estando no caso concreto as remunerações enquadradas no art. 15º da CDT
Portugal/Espanha, pode um determinado sujeito passivo beneficiar do regime dos
trabalhadores fronteiriços previsto no nº 4 do artigo 15º da CDT Portugal/Espanha
desde que verificados os pressupostos desse regime.
Nos termos do n.º 4 do art. 15 da CDT celebrada entre Portugal e Espanha, as
remunerações auferidas de um emprego exercido num Estado Contratante (Portugal)
por um trabalhador fronteiriço, isto é, que tenha a sua residência habitual no outro
Estado Contratante (Espanha) ao qual regressa normalmente todos os dias, só podem
ser tributadas nesse outro Estado (Espanha).
Quer isto dizer que apenas o Estado da residência (Espanha) tem competência para
tributar as remunerações auferidas pelo emprego no outro Estado (PORTUGAL).
Também e não menos importante, a susceptibilidade de um regresso normal diário à
sua residência é uma condição necessária para a consideração da qualidade de
trabalhador fronteiriço, pelo que importa atentar ao facto de que a distância entre o
domicílio do sujeito passivo (em Espanha) e o seu local de trabalho (em Portugal) se
revela exequível diariamente.
Pelo que, em face dos elementos fornecidos verificam-se os requisitos elencados no n.º
4 do art. 15º da CDT celebrada entre Portugal e Espanha, nomeadamente os
trabalhadores têm residência em localidades de fronteira, Badajoz e Oliva de La
Frontera, Espanha, sem que tenham em Portugal nenhum tipo de habitação
permanente à sua disposição; e desenvolvem a sua atividade profissional no Alentejo,
pelo que a suscetibilidade de um regresso normal diário à sua residência em Espanha
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do local de trabalho no Alentejo se revela exequível.
Nestes termos, confirma-se que a competência tributária é exclusiva do Estado
Espanhol não havendo lugar a retenção na fonte em Portugal, conforme disposto no n.º
4 do art. 15º da CDT celebrada entre Portugal e Espanha.
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